Liberdade

O conceito de liberdade depende de como se concebe Deus. Se o concebemos como ordem e necessidade ou se o concebemos como vontade (na falta de uma palavra melhor para contrapor a “ordem”) e contingência (na falta de uma palavra melhor para, neste contexto, contrapor a “necessidade”).

E o conceito que se tem de Deus depende de como concebemos o tempo e de onde derivamos a idéia de infinito.

Ao menos para mim me parece “fácil” derivar a prova ontológica em Descartes não de um jogo lógico-retórico tantas vezes repetido e notabilizado por Santo Anselmo, mas da percepção da identidade da cera como algo “flexível e mutável” a despeito de suas modificações “no tempo”.

É ali – no que para mim se tornou o momento mais deslumbrante de toda a literatura universal de tudo que li até hoje, só comparado à entrada triunfal de Édipo em Tebas (certo de ter derrotado o destino e ainda se tornado rei, quando acabara de completá-lo), mas mantendo com essa cena uma relação de oposição, já não de engano, mas de verdade, como se finalmente o enigma da Esfinge (O que é o homem?) fosse finalmente resolvido –

é ali, eu dizia, na simples observação de um pedaço de cera se derretendo, que Descartes vislumbra que é a idéia de infinito que serve de fundo ou  fundamento, contra ou sobre o qual se ergue a idéia de que “a mesma cera permanece”, uma identidade que não depende de nenhum forma exatamente, uma vez que na substância da cera é possível intuir um número infinito delas: todas as formas possíveis de ser cera estão presentes em cada pedaço de cera e assim para todas as coisas. Ou seja: o infinito está presente em tudo. Mas não percebo isso com os sentidos (pois não vejo o infinito contido na cera), mas com outra faculdade. Ou melhor, “não é com o corpo que percebo”, visto que o corpo ou os sentidos apenas me dão as imagens do que presentemente ocorre. A intuição do infinito de formas possíveis vem de alguma outra faculdade, que Descartes chamará de entendimento e que, nesse momento das Meditações, se confunde como o próprio espírito ou substância pensante.

Então o Deus concebido por Descartes é um Deus imanentíssimo, presente em cada coisa. Um Deus que se mostra, mas que não se deixa contar. Pois a linguagem, sucessiva por defnição, não pode dizer o simultâneo. Mas um Deus que é fundamento – como idéia de infinito – de todas as idéias de duração que tenho. Então se “ser é durar” e se a idéia de infinito é o fundamento da idéia de duração, logo Deus é o fundamento do ser de todas as coisas.

Que a cera tenha tomado esta forma e nenhum outra do infinito possível é mistério insondável, mas irrelevante.  A liberdade que se presume aí e que impregna tudo é própria de Deus: para Deus que abarca tudo, a forma contingente que a cera tome lhe é indiferente porque já está presente Nele em sua infinita grandeza.

A “eterna simultaneidade” de Deus significa dizer que Deus é “tudo (o possível e o impossível) ao mesmo tempo agora sempre”. Ou seja, o tempo que se deduz daí é descontínuo: nenhuma necessidade liga um momento a outro momento. A cada instante a totalidade é recriada e, portanto, não há nenhuma necessidade entre um instante e outro. O comum, o inesperado, o improvável e o impossível são apenas formas do mesmo milagre: que haja o ser.

Essa liberdade é partilhada por todos os seres porque é própria de seu Criador. Eu sou tão livre quanto o Deus que concebo, pois Deus nenhum concebe algo menor do que Ele mesmo ou não seria Deus, cujo atributo principal é a perfeição ou o maravilhoso.

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Repare-se que causalidade, negação e generalidade emergem daí como idéias próprias do pensamento, sem correspondência no mundo. No mundo, na vida não há causalidade no sentido estrito de “relação necessária”; não há negação, mas só o ser; e não generalidade, porque tudo é singular.