Liberdade 2

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Anselmo – como Descartes bem nos mostra – fica no campo dos argumentos que a ciência tornará retóricos. Porque a ciência exige que além do argumento exista a experiência: é  preciso que os argumentos sejam também sejam empíricos. Por isso a meditação, porque é uma forma de experiência e não um simples argumento. Kant escolhe ficar por aí, no campo dos argumentos, se perguntando se existir é ou nao é uma perfeição.

Eu afirmo que a experiência do pedaço de será nos mostra a presença do infinito em todo objeto, ou em toda idéia de substância.
Retrospectivamente, posso dizer que a própria ideía de duração – que emerge como critério de existencia – depende da idéia de infinito.
O mundo se dá sob um fundo infinito. A cera quando se dissolve é uma metafora de toda a fisica cartesiana, onde a substancia extensa é isso, flexivel e mutável, capaz de uma infindade incontável de formas.

Não é na aparencia da cera – ou melhor ainda, nas aparencias – que eu vejo o infinito, mas na possibilidade de formas que subexistem simultaneas e virtuais, no pedaço de cera presente.

E, o que diferencia (ontologicamente) o argumento ontologico de Descartes do argumento de Anselmo: descartes experimenta isso no instante mesmo da meditação, numa experiencia que pode ser reproduzida por qualquer meditador atento – nem precisa ser experiente.
E esse é o grande barato cartesiano: tudo pode ser experimentado. E é exatamente isso que é esvaziado pela academia desde q Descartes exibiu o seu texto.

3 Comentários

  1. A história de ser a causalidade um ‘efeito’ do pensamento, ‘indevidamente’ aplicado à realidade: ora, apesar de criado a cada instante, esse mundo não teria causa (Deus)? Se é positiva a resposta, a demonstração de ser a causalidade algo exclusivo do pensamento deve tomar rumo diferente.

    Outra coisa inexplicável para mim: a sua ‘birra’ para com a generalidade, o universal, bem como o seu afeto desmedido pelo particular. A sua – e de todo humano – maneira de articular o pensamento passa necessariamente por ambas as categorias. Não há como preferir uma a outra.

    Já a cera cartesiana me parece uma metáfora da substância, necessária, no contexto das Meditações, para a demonstração de Deus enquanto precisamente isto, substância – embora uma entre diversas substâncias: Descartes mostra-se muito incerto a esse respeito.

    Quanto à liberdade, hoje começo a entender que Descartes não errou tanto quanto certos críticos o dizem. Mas nem ele creu que Deus jamais criaria algo menor do que ele próprio, apesar de acreditar termos recebido dele vontade infinita. Caso seja isso um dom, poderíamos compará-lo ao presente de grego, pois não nos deu também entendimento em grandeza compatível com tamanha vontade. No fundo a questão permanece na mesma desde há milênios, quando se descobriu que só o ignorante acredita ser livre, visto ser o dever a única coisa de que podemos libertar-nos, mas somente para em seguida depararmos um outro. Quando se conhece o certo, só há o dever, o dever para com realizá-lo.

    Por isso, a tantos que em sua necessidade de ação parodiam o argumento de Descartes com ‘penso, logo desisto'(de agir, é claro), eu aconselharia a o fazerem com ‘penso, logo insisto’, mesmo porque pensar é ação como qualquer outra e a insistência – a atenção, a que você atribui papel fundamental em Descartes – parece ser o único caminho para se evitar o erro. Além do mais, é melhor mesmo desistir da ação quando não se está certo de ser a melhor, mesmo se com isso se tenha a impressão de possuir-se pouca ou nenhuma liberdade.

    Então, se Deus é liberdade, porque não pôs Ele, no lugar do sol, por exemplo, todo o infinito de coisas possíveis? Digo o sol, mas ponha nessa frase o que você achar melhor. Ora, Ele teria criado o mundo como se nos apresenta, não este e sua alternativa, não todas as possibilidades de universo. Deve, por conseguinte, ter tido um bom motivo para tal e este seria o de criar o mundo como ele é. Até que ponto teria Ele sido livre para criar mundos com leis físicas incompatíveis ou com sei lá quais características surreais? Se Ele se dobrou a criar este e não outro mundo, ora, não seria esta uma mostra de que nem Ele próprio goza da liberdade que fantasiamos?

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