Eu/ tu

Exatamente quando eu olhava a dramática sensualidade das altas palmeiras régias ao vento se agitando juntas
E pensava que você poderia estar ali e então eu não precisaria escrever porque me bastaria que teus olhos vissem,
Eu me sentiria traduzido como se escrevesse versos,
Pois teus ouvidos teriam ouvido o som de água correndo que as palmas fazem dando cor ao vento,

E então o celular tocou e era você,

e eu claro me senti um telepata,

eu que vinha pensando em coisas – cabala, tarot, descartes, a idéia de infinito presente em tudo, a equivalencia de ser, durar, conservar – conservar o quê? um estado inercial que nos faz obter o máximo de rendimento com um mínimo de esforço, por isso a necessidade de traçar e retraçar trajetórias para manter o curso, se deixando levar e, ao mesmo tempo, alerta; em movimento e imóvel; sem intenção e atento; diluído e concentrado

e então o corpo se torna uma incrível máquina de processar energia ou prana.

(consome oxigênio, libera CO2. Por isso uma ecologia pensada como estratégia de destruição de “unidades consumidoras de oxigênio e liberadoras de CO2” é fundamentalmente anti-humana)

Quanto menor consumo, maior duração.

(só quem poupa, tem. E só quem tem pode ser generoso: ninguém pode dar o que não tem)então o movimento natural de todo organismo é poupar para durar. Movimentos enxutos, precisos, sem ansiedade, sem excessos, tomando energia do sol, do ar, da água, dos frutos da terra…

E então, quando eu quis que teus olhos vissem as palmeiras ao vento com os meus olhos, toca o celular e é você…

Não é uma graça?

Os céticos dirão: “Mas você pensa nela o tempo todo!”.
Ao que responderei, imperturbável: “É fato! mas só as vezes com a intensidade de provocar telefonemas”.