Liberdade 3

Waldemar fez um longo comentário em Liberdade 2 (clique aqui), que por sua vez é um comentário a Liberdade (clique aqui).

Achei mais proveitoso e cômodo abrir um novo post. Os trechos de Waldemar seguem em itálico.

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A história de ser a causalidade um ‘efeito’ do pensamento, ‘indevidamente’ aplicado à realidade: ora, apesar de criado a cada instante, esse mundo não teria causa (Deus)? Se é positiva a resposta, a demonstração de ser a causalidade algo exclusivo do pensamento deve tomar rumo diferente.

A questão aqui não é a causa como relação seja lógica, seja temporal, mas a causa como expressão de um “princípio de necessidade”, causa como implicação obrigatória, causa como fundamento de regra, causa como causa ontológica.

Se Deus é causa do mundo ou que tudo tenha em Deus a sua causa daí não decorre que a causalidade  exista ou subexista nas relações mundanas com o mesmo sentido de algo tirado do nada pela vontade de outro. Ao contrário, admitir Deus como causa primeira parece suficiente ao menos como causa ontológica. Todas as outras “causalidades” se reduzem a “relações complexas”.

Causa ontológica é uma coisa, causa como relação entre elementos ou eventos, é outra. Veja o caso da chuva (e lembre de suas aulas de capoeira: pergunta e resposta, ação e reação). As chuvas são uma resposta a uma série de fatores combinados. Não há uma causa stricto sensu, uma causa ontológica, para a chuva.

Outra coisa inexplicável para mim: a sua ‘birra’ para com a generalidade, o universal, bem como o seu afeto desmedido pelo particular. A sua – e de todo humano – maneira de articular o pensamento passa necessariamente por ambas as categorias. Não há como preferir uma a outra.

Mas eu não discordo que a generalidade – assim como a causalidade e a negação sejam categorias do pensamento e instrumentos fundamentais da ciência. O que eu afirmo é que só existem singulares ou particulares. “Os brasileiros” só existem como uma categoria mental com uma vaga representação na realidade. Mas de existente memso, no sentido forte, de algo que é, só o que existe sou eu , você, cada um.

Já a cera cartesiana me parece uma metáfora da substância, necessária, no contexto das Meditações, para a demonstração de Deus enquanto precisamente isto, substância – embora uma entre diversas substâncias: Descartes mostra-se muito incerto a esse respeito.

Aqui, não sei… Não sei se Descartes se mostra “incerto” de Deus ser mais uma entre tantas substâncias. Cartesianamente, acho que Deus seria A Substância. Mas mesmo assim, não sei… Substância (como eu acredito que Descartes a entende) está associada à duração, ao finito, e a impressão que tenho é que o Deus cartesiano é ao mesmo tempo imanentíssimo  em sua obra, mas absconso. Deus se mostra, mas não se deixa dizer –  seria isso, um tanto à maneira de Wittgenstein I.

A cera é, para mim – e só para mim, até onde sei (e sabemos que, neste terreno “originalidade” é quase sempre indicação de erro) –  o fundamento da prova “ontológica” da existência de Deus em Descartes. É a “experiência da cera” que mostra ao observador a “idéia de infinito” oculta sob a aparência sensível da mudança.

É também aí que eu vejo um indício da contingência de todos os fatos (não-necessidade e nesse sentido, não-causalidade): a cera poderia ter tomado qualquer uma do infinito de formas possíveis e ainda assim seria a mesma cera.

Quanto à liberdade, hoje começo a entender que Descartes não errou tanto quanto certos críticos o dizem. Mas nem ele creu que Deus jamais criaria algo menor do que ele próprio, apesar de acreditar termos recebido dele vontade infinita. Caso seja isso um dom, poderíamos compará-lo ao presente de grego, pois não nos deu também entendimento em grandeza compatível com tamanha vontade. No fundo a questão permanece na mesma desde há milênios, quando se descobriu que só o ignorante acredita ser livre, visto ser o dever a única coisa de que podemos libertar-nos, mas somente para em seguida depararmos um outro. Quando se conhece o certo, só há o dever, o dever para com realizá-lo.

Me surpreenderia se alguém que tenha alguma vez acreditado em Deus, pudesse ao mesmo tempo crer que sua Obra pudesse ser menor do que ele mesmo, ainda que distinta.

A meditação é a prova de que esse “descompasso” entre entendimento e vontade é “contornável”. Aqui é preciso fazer uma pausa e destacar esse aspecto do cartesianismo. A tensão fundamental em Descartes não é entre “razão e emoção” ou qualquer uma de suas variações correntes, mas entre vontade e entendimento. Isso é fundamental para se entender Descartes.

É interessante tb – e ninguém parece ter percebido – que é exatamente a vontade (que conduz a experiência do Cogito)a marca mais evidente de Deus em mim seja  tb a “causa” dos meus erros. E é engraçado que me ocorra agora que é a vontade que precipita o entendimento a intuir generalizações e vez de pacientemente perceber o encadeamento singular das coisas…

Imagino que esse entendimento “finito” é adequado a um mundo “finito”, onde tudo é singularmente finito, onde o preço da singularidade é a “finitude”.

Eu penso liberdade em contraponto à necessidade. A liberdade que descubro na cera e permeia o mundo é uma liberdade que está na origem das coisas, em Deus. Se “criar e conservar” são o mesmo para Deus e então o tempo é descontínuo pq a criação se reafirma em todo o seu vigor a cada instante, não há relação de necessidade entre os instantes: Deus é livre. Estamos condenados à liberdade. E para piorar, acrescentaria: à liberdade e ao amor.

12 Comentários

  1. O debate de vocês me fez voltar para a primeira meditação e me deixar empacada na terceira. Por ora, o esforço puramente intelectual de RD para a questão ontológica tem me deixado fascinada (e, por enquanto, me basta).

  2. Acho que finalmente estamos nos entendendo. O que vc chama de “minha filosofia” ainda é uma intuição – ou a idéia de um poema – na cabeça de um louco. O que pergunto – a vc e a qualquer um que tenha lido o célbre trecho das meditações intitulado “o pedaço de cera” – uma das mais brilhantes peças da literatura – é se no pedaço de cera minha mente vê com o entendimento (para ficar no vocabulario de descartes) toda a perfeição da cera, ou dito de um modo meio wittgensteiniano, – todo o campo de possibilidade de ser da cera, aquele incontável número de formas possíveis que ainda assim, fosse qual fosse, me permitiria afirmar que é a mesma cera que permanece. Se essa é a primeira aparição da idéia de infinito, uma cifra incontável que intuo (o verbo é esse mesmo, no sentido cartesiano) com o entendimento e a imaginação (então é “como se visse”) então posso partir dali para pensar que idéia é essa, essa idéia de infinto.

    O proximo passo é articular essa idéia positiva de “uma infinidade de formas possíveis” de algo que permanece no tempo a despeito da mudança, com 1) a primeira ideia, a ideia de cogito como “uma pura duração vazia de conteúdo” (de onde eu penso poder extrair um princípio de que “tudo que dura, é” ou “ser é durar”) e 2) o princípio de que criar e conservar são o mesmo, ou seja: não há relação de necessidade entre os instantes.

    Aparentemente vc não vê articulação possível.

    Bem, para 2) pensei que talvez pudesse deduzir do fato da cera ter tomado uma forma entre “uma infinidade de formas possíveis” que intuo na cera a conclusão de que qualquer uma dessas formas poderia ter acontecido sem que nada de substancialmente diferente ocoresse com a cera enquanto algo que dura e permanece essencialmente o mesmo apesar da mudança.

    É claro que nesse ambiente metafísico – nesse palco metafisico, se vc preferir – o pedaço de cera é uma alegoria da relação entre substancia pensante e substancia extensa que são as duas substancias que Descartes admite (de que maneira pensamento pode ser transmutado em movimento eu adoraria especular… a fisica é feita de movimento e extensão; a metafisica de pensamento e extensão. Nomes). Enfim, o que eu queria dizer é que no teatro metafisco, o pedaço de cera é uma alegoria do universo, de tudo que é.

    Então, tudo que é, é dentro de um campo de possbilidades que abarca “todo o possível” para aquela entidade. Então tudo que ocorre é, ao mesmo tempo, 1) préfigurado 2) absolutamente contingente: o ser é livre para tomar o caminho do esperado, do provável, do possível e do impossível (visto que o impossível é, em pensamento), e isso é essencialmente IMPREVISIVEL: todo calculo futuro é probabilistico: “ninguém sabe o dia seguinte”. Ou como prefere o bom cinema americano: “ninguém sabe o instante seguinte”.
    Mas para o mundo qualquer caminho que tome é indiferente, ele está pronto para assimilar, digamos assim.

    Eu vejo isso no pedaço de cera e vejo na descrição do mundo que Wittgenstein faz na abertura do Tratactus. Claro, intuição de louco. Mas eis uma conexão que vale o risco tentar…. Creio, eu.

    Como diz vc, de um modo geral, são absurdos que talvez com muito polimento ganhem um brilho – provavel de bijuteria. Se me valer uma boa crônica já estarei satisfeito. Não é ironia: acho que se trata de uma experiencia sensorial, no sentido cartesiano de que mesmo o sensorial é um modo do pensamento – tanto o trecho que chamam “o cogito” quanto “o pedaço de cera”. Eu quero, sim, poder narrá-los com precisão como experiencia minha, nessa “via cartesiana”. “Passei pela via cartesiana e eis o que vi”.

    Esse Deus imanentíssimo e livre (que talvez até tenha se supreendido com a emergencia da consciência no seio da Vida) eu sou, de fato, suspeito de falar porque já o enxergo na praia, no mar, no vento, na chuva… Deus sive Natura. Canso de dizer q sou um cronista meteorologico.

    Entao é claro que não me parece q a sucessão seja uma ilusão só porque Deus mantém o permanente vigor do mundo (ou como imagino que diria Parmenides: “O Um é”. Imutável e mutável. Eu diria: Simultaneo e sucessivo) Ao contrário é por estar como que em Deus (como todo o possível e o impossível) que tudo pode ser – livre e contingente.

    Eu falo Deus porque creio mesmo que há um Deus. E no fim das contas, como acho que concordamos, é fé. O mais perto que você pode chegar de uma certeza é pela via da meditação metafísica: a experiencia útlima, por mais racional, é sempre subjetiva.

  3. Vejamos: quando dizemos ‘um mundo sem ou com causalidade’ não afirmamos nada acerca do mundo, mas de como o entendemos a partir de percepções quaiquer. Espero que quanto a isto estejamos concordes. Caso não o estejamos, bem, é assim que estou trabalhando o tema.

    Entendamos: “uma Física probabilistica, de relações probabilisticas, “dadas certas condições, o provável é que tais e tais elementos reajam de tal maneira”, que estranho, isso cheira a Física quântica……” Física Quântica? Isso me cheira a qualquer física, qualquer química, qualquer biologia, qualquer história, qualquer teoria da música, qualquer teoria literária etc, enfim, me cheira a qualquer tipo de abordagem dos fatos mundanos a que se costuma chamar de uma ciência. A sentença que você colocou entre aspas está quase sempre nas primeiras páginas de qualquer manual de filosofia da ciência ou metodologia científica. Estou quebrando a cabeça para entender como você viu nela uma maneira de esquivar-se da causalidade.

    Aliás, repito, volte ao Descartes, releia os Princípios – onde ele reelabora, esmiúça, as Meditações – e o Método, além das Paixões: nada há ali que negue o princípio da causalidade. Vá à seção dos Princípios onde ele aborda a substância – o assunto está mais destrinçado do que nas Meditações: mesmo ela, a substância, é apresentada sob o viés da necessidade (“uma coisa que existe de tal maneira que só tem necessidade de si própria para existir”); mais abaixo aborda as ‘coisas criadas’ (“por que, entre as coisas criadas, algumas são de tal natureza que não podem existir sem outras, distinguimo-las daquelas que só têm necessidade do concurso ordinário de Deus, chamando então, a estas, substãncias, e, àquelas, qualidades ou atributos das substâncias”). À guisa de parêntese meu, reitero que ainda não consigo engolir essa multiplicidade cartesiana de substâncias.

    O interessante em Descartes é o seu viés: desde o início sabe que fala apenas do pensamento, não tem a pretensão de dizer como é o mundo e com humildade destrinça o modo de pensarmos. Ele está preocupado em bem delinear essa moldura por cujo intermédio cremos compreender o mundo e se volta com toda energia para seu aperfeiçoamento, analisando os motivos (as ‘causas!) dos pensamentos claros e obscuros, do erro etc. E sabe, por conta disso, não poder desdenhar da causalidade ou mesmo negá-la: é praticamente o único instrumento a lhe fornecer conclusões acerca do que colhe com os sentidos.

    Uma demonstração instrutiva de como é inerente ao pensamento a causalidade é a leitura de todos esses seus recentes textos: desde o uso dos privativos ‘não causal’, não necessário’ e outros, até as descrições de sua nova física (ou filosofia, ou teologia, ou teoria política(!!!), ou…) que, nada obstante incipientes, não logram abir mão dos esquemas causais como a própria silogística – o ‘se… então’.

    O problema é que o seu raciocínio – digamos que de fato o seja – escorrega e não pára em canto algum. Por exemplo: em alguns pontos dos seus textos afirma-se a importância da causalidade para a ciência e neste último, se algo entendi, que a boa ciência é ou será a não-causal; em outros há uma classificação obscura de causas; mais à frente uma querela inútil em torno a causa e origem (ora, Deus é a causa mais imediatamente à mão para seja o que for e com ela não se tem feito nada além de religião: lembre de Laplace e observe a maluquice do Criacionismo ou Desenho Inteligente: qualquer coisa se explica em Deus – escrevi um bocado sobre isso no blog).

    É por isso que Descartes em certa medida segue a receita aristotélica de substância e acidentes: dizer que tudo é substância e fácil; compreender os meandro por que se dão os acidentes, isto sim, é trabalhoso e vem demandando milênios de esforços conjugados. É possível que em suas idéias se encontre poesia, muita e desordenada, como talvez caiba a um poeta.

    De minha parte, não sou ‘especialista’ em nada disso, mas um leitor contumaz desses temas, já faz alguns anos (você sabe e só forneço a informação por ser esta uma página pública). Até o presente jamais li engendramentos tão singulares de conceitos cimentados ao longo de séculos e só me dispus a comentá-los a pedido! Como já lhe disse, não perco a esperança de que um dia se tornem boa filosofia, quem sabe se em outra cabeça. Dizem que as grandes idéias começam em cabeças de loucos, só então passando para as de filósofos para muito depois fermentarem nas dos cientistas e por fim virarem tecnologia. Quem sabe se um dia…?

    Fique bem.

  4. Finalmente vc entendeu! É exatamente isso: não há relação necessária. Mas calma, não perca o folego e se precipite em conclusões e premissas sem sentido como as que se seguem a admissão de que “não há relação necessária”. O problema é que seu logo é muito logo. Mantenha a calma.

    O mau exemplo dos pais mostra bem sua confusão entre causa e origem. Descartes o usa nas Meditações para mostrar que, a causa metafísica de sua existência não são os pais, mas Deus. Devo acalmá-lo: não, Descartes não se pretende o novo Messias ou qq coisa assim.

    Mas, se vc entende que necessidade não implica subordinação, e causalidade nesse caso nomeia uma relação mais temporal do que qualquer outra coisa, fico muito contente…

    Ah, o horror de uma física sem necessidade. Não se desespere. Ela é uma Física probabilística. Não vá colocar a mão no fogo por isso: o mais provável é que ela queime. Contam haver exceções, gente que anda sobre brasas, etc. Mas não se fie nisso. Siga a sua fé e mantenha sua mão longe do fogo. Quanto à alimentação, a mesma coisa. Ainda que haja gente que diz viver de luz ou praticantes radicais do crudivorismo que se satisfazem com uma fruta por dias, convém que vc mantenha sua dieta.

    Ah, uma Física probabilistica, de relações probabilisticas, “dadas certas condições, o provável é que tais e tais elementos reajam de tal maneira”, que estranho, isso cheira a Física quântica…. Calma, calma. Apenas faça assim: mantenha todas as relações que vc enxerga entre os elementos, quaisquer que sejam… Agora apenas retire a necessidade ontológica dessas relações. O que as orienta então? Um princípio de economia baseado em algo como uma lei de inércia ou lei do menor esforço, característica q me parece essencial em seres finitos.

    E fique tranquilo, um mundo sem necessidade não precisa de novas igrejas – já há praticas suficientes que favorecem a aproximação como o divino.

  5. Gostei! Só faltou apontar o erro da ‘premissa erradamente deduzida’ por mim do que você disse. Pois se há erro em premissa, ele é seu, visto eu ter extraído algumas conclusões de suas premissas.

    Se bem entendi, não há conexão necessária entre o fogo e a queimadura em quem dele se aproxima, entre a bala que atravessa a pele e a ferida, entre você e eu, por fim, e nosso debate – apesar de acreditarmos debater um tema e ao comentário de um seguir-se o do outro. Isto e tudo mais ocorreria por acaso, ou melhor, ocorreria segundo a volição de um deus que recria o mundo a intervalos arbitrários e nos dá a ilusão de que conversamos sobre um mesmo assunto. É isto? Ora, é maravilhoso! Num mundo assim não há necessidade de produzir-se nada. Para quê? Se a cada instante tudo se produz por obra de tal deus que, de quebra, nos dá a ilusão de continuidade, só me resta esperar que a comida me apareça no prato ou que no instante seguinte ele se aborreça com a nossa conversa e decida não nos criar mais.

    Percebo também que há uma confusão enorme de termos na faina de pôr de pé esse mundo sem causalidade. No que, por exemplo, o fato de uma coisa causar outra acarreta a subordinação da coisa causada? Você, por acaso, continua subordinado aos seus pais (caso, é evidente, se suponha que o encontro deles o casou)? Haja vista o passo da vida, é precisamente o contrário que termina por ocorrer.

    Ando folheando o que tenho de Descartes e não acho nada acerca da ausência de causalidade. N’As Paixões da Alma o esquema pressuposto me parece todo fundado na causalidade, com a ‘pineal’ comandando o indivíduo. No Método não há também qualquer menção a isto. Ao contrário! Pelo jeito Descartes não fez muito caso disso de criar ser o mesmo que conservar, ou o concebeu de modo mais comportado, sem banir causa e efeito. Parece tratar-se de criação sua e não entendo o motivo de você a ‘submeter’ ou alegar que foi causada pela filosofia de Descartes. Pode prometer enquanto teoria, mas mostra-se ainda incipiente, necessitanto de muito polimento até fazer algum sentido (para quem está habituado a entender o mundo de maneira mais comezinha).

    Ou você compartilha os elementos que o levam a conceber assim a realidade ou será sua teoria para sempre privativa sua e, caso de algum modo você a prove verdadeira, só lhe restará a criação de uma igreja e a auto-nomeação como pontífice supremo e único. Aqui só quero compreender e, assim desejando, termino por expor os pontos não condizentes com a minha – e, ao que parece, do restante dos humanos – ordinária concepção de realidade.

    P.S.: Não, não me parece que a concepção causal do mundo necessariamente justifique o exercício da dominação. Ela apenas procura entender os eventos relacionando-os a outros eventos que os teriam determinado. A dominação está entre o que se quer compreender, embora não seja impossível haver quem procure justificá-la e se valha da causalidade, pois, como afirmei anteriormente, não é possível evitá-la, como bem o demonstram os seus raciocínios para construir uma visão não-causal do mundo.

    Também não confundo causa e origem, embora muitas vezes uma signifique o mesmo que a outra, dependendo do uso que se faça dos termos.

  6. Toda medida de tempo é arbitrária, escolha vc a sua. É indiferente para o bom intendimento da ideia de que criar e conservar são o mesmo. É interessante q vc só consiga reconhecer a causalidade como relação conectiva. Não é a toa que a liberdade para vc está subordinada ao dever. Mas então vamos lá: os seres criados não são ilusórios. São seres finitos, entidades livres e vivas. A quantidade de movimento e matéria que sustenta a Vida permanece em todo seu vigor eternamente, a despeito da inebriante sucessão de eventos, nascimento, maturação e morte, infinitamente. Nenhuma necessidade ata as relações que se estabelecem entre esses seres – tudo poderia ser ou não ser. Enfim, chamo de causalidade a conexões necessárias. O que afirmo é que não existem conexões necessárias. Mas eu sei que é dificil viver num mundo sem subordinações

    Como aliás, não há nenhuma relação de necessidade entre sua premissa erradamente deduzida do que eu disse e sua conclusão, ainda que é engraçado imaginar que a ciencia e todo conhecimento humana não seja mais do que uma psicologia do divino…

    vc quer dizer q as religiões seriam redes de relações não-causais? Ou seja, as religiões não estariam plantandas justamente na necessidade e na causalidade? As religiões não me parecem outra coisa, como aliás, o próprio estoicismo.

    Ora, onde há necessidade há dominação, não lhe parece?

    E vc confunde causa e origem.

    Seu pensamento não consegue esconder o cheiro de batina e farda. São caminhos perigosos, claro, os que professam um Deus que é liberdade e não necessidade. mas não são caminhos assim tão novos.

  7. Agora estou seguro de que você acreditou no artifício do gênio maligno ou deus enganador. Pois não é outra a natureza dum demiurgo que urde um universo não causal povoado de seres os quais induz a compreender esse universo por intermédio da causalidade. Será que a idéia de ‘tempo discreto em Descartes’, segundo a qual ‘criar e conservar são o mesmo’ acarreta o aparecimento, a cada unidade de tempo (cuja medida ainda nos é e pelo jeito nos será sempre desconhecida, pois também privativa do Criador), de um mundo inteiramente novo e quiçá sem qualquer conexão com o anterior? Caso a resposta a essa questão seja positiva, o conhecimento da natureza só seria possível quando se conhecessem os meandros da psicologia divina, as volições de Deus, matéria na qual se dizem especialistas os teólogos, e toda a ciência desenvolvida até hoje seria um enorme engano.

    Por outro lado, o que seria uma ciência de ‘redes de relações não-causais’? Sob que critérios estabelecer-se-iam tais redes? Não é desse modo que há milênios vêm descrevendo o mundo os líderes religiosos, extrememente úteis nas ‘redes de dominação’ que estabelecem com as diversas formas de governo? Não é assim que se produz a idéia de milagre?

    Ora, a relação causal já é complexa, bem como descritível como uma rede, e mesmo uma teologia que creia negá-la estará em seu discurso fazendo uso dela sistematicamente. Não há como evitar. Pois estamos impregnados da idéia de causa, a qual, inclusive, é causa da vaga idéia que podemos ter de Deus – a de causa primeira). Mas a causalidade não pode ser e não é uma rede de relações arbitradas por quem se diz conhecedor dos desígnios de Deus, embora não pareça inverossímil acreditar que o seu uso nos fornecerá algum dia tal conhecimento, ainda que em fração.

    Enfim, tomar à letra o seu argumento é enveredar por caminhos perigosos, exatamente aqueles que seu ideário neo-liberal abjura. Sustentá-lo, como você o vem fazendo, parece ser o mesmo que criar as bases para uma nova igreja.

  8. De novo: o tempo discreto de Descartes. Criar e conservar são o mesmo. Logo, a questão de ser o mundo móvel ou imóvel – ou dito de outro modo: de ser o mundo uma simultaneidade “imóvel” ou uma sucessão “móvel” é falsa e se resolve por graus – como sempre. A sucessão é o modo como a eternidade se “resolve” na Vida, no Mundo. Deus cria a Vida à sua semelhança. A vida não é igual, mas semelhante á Deus. A Vida é uma finitude infinita, pela reprodução. Esse é o modo da Vida ser divina. Distinta, mas semelhante a Deus. Os seres são singulares (como Deus) mas finitos. A Vida é infinita (como Deus) mas múltipla.

    Então a duração não é uma “invenção” no sentido de uma ilusão. É um dos modos de se perceber a Vida. E um modo certamente privilegiado, porque a consciencia nos dá acesso a outros modos. A linguagem é sucessiva pq a Vida é sucessiva ou finita: tem começo, meio e fim.

    O infinito é uma idéia. Uma pura idéia sem correlato (sensível, material) no mundo. Daí, conclui Descartes, a “causa” dessa idéia só pode ser um ente infinito – que é Deus. Acho esse raciocínio sutilíssimo e para mim foi como uma iluminação. para mim é prova suficiente.

    E é essa idéia que eu (e eu penso que Descartes tb, mas não tenho certeza) vejo (como os olhos da mente) na cera em mutação. É essa idéia que “sustenta” a idéia (também, na verdade, puramente mental) de que a mesma cera subexiste, a despeito da mudança.

    O problema é que se toma “puramente mental” por ilusório ou falso, pq imaterail. E nisso está o erro. Entre outros.

    A totalidade – o esperado, o provável, o possível e o impossível – está em Deus. Logo tudo que venha a ser já está inscrito em Deus. Nada está determinado mas como que prefigurado. Quem mostrou isso magistralmente bem foi Wittgensteino no começo do tratactus – ou, mais uma vez, penso eu ter lido assim.

  9. Vc tem razão. Penso derivar das Meditações conclusões que não estão lá explicitamente. A filosofia não tem feito outra coisa nos últimos 300 e tantos anos, desde a publicação das meditações. E vc mesmo “inventa” um Descartes dado a belisções e ironias, como se fosse ele um ateu ou quase isso fantasiado de beato.

    Repito: a negação da causalidade enquanto relação necessária e originária entre duas coisas é derivada da noção de tempo discreto, da idéia de que em Deus criar e conservar são o mesmo. Não há portanto relação necessária entre um instante e outro.
    Agora, não nego que a causalidade seja uma ferramenta fundamental para se fazer ciência ou mesmo na produção daquele conhecimento cotidiano baseado na mera verossimilhança: a causalidade no sentido fraco é muito útil. Agora, dizer que ” Ocorra ‘lá fora’ o que ocorrer, o compreendemos e expressamos por meio da relação causal” é excessivo. Posso escolher entrelaçãr fatos e coisas numa rede de relações não-causais, não lhe parece?

    A questão da relação entre idéias e mundo é a motivação para a busca de uma prova da existência de Deus. Ou acabamos “como Kant, Wittgensteisn e outros que abriram mão de investigar o que seria o mundo para além de nossas idéias, pelo motivo único de ser impossível”. No fundo, Descartes quer ter certeza da relação privilegiada da consciencia com o mundo e pensa dar provas da verdade dessa relação. Se conseguiu ou não, nisso se resume o drama da filosofia primeira, visto que a física e as outras ciências fundadas a partir do método não param de dar mostra de sua eficiencia.

    Descartes, Espinosa, Borges dirão cada um a seu modo que Deus e Natureza são o mesmo. Ou Deus e Mundo. mas essa equivalência é de algum modo semelhante aquele que existe entre ideia e coisa, entre o objeto e seu reflexo. Nós somos criaturas divinas, mas distintas de Deus. Somos Deus enquanto partes de Deus. Lembrei daqueles vidrinhos onde se lê: “ar de Paris”.

    Há uma diferença de grau, como tudo em Descartes.

    Achei interessante esse modo de falar de vontade e entendimento. A dificuldade de se entender sua interação é semelhante a dificuldade de entender o modo como corpo e mente (substância extensa e substância pensante) interagem. De qq maneira, mesmo que o embate se desse entre muitas vontades, a própria distinção entre elas parece apontar para a mediação de um entendimento. Eu diria que a vontade é cega e o entendimento é fraco.

  10. Outro ponto: ‘finito’ e ‘infinito’. O que seriam essas duas entidades de fato? Por um lado há infinitude na cera, por outro ela é parte do mundo finito. Parmênides diria: ‘ou finito, ou infinito, não ambos’. Disse ele também que o mundo é finito, é limitado e redondo.

    Creio que você quis dizer: vivemos num mundo infinito, ou no qual a categoria ‘infinito’ se mostra por toda parte, e por outro lado vemos indivíduos, ‘singularidades’, como quer você, talvez por incpacidade de ‘ver’ o infinito. Isto sim, disse Descartes: se vemos o infinito, é com o pensamento. Disse Descartes e toda boa filosofia. Disse Parmênides também que deparamos o mundo por inteiro e que ele é estático, desprovido de tempo, deixando claro, para bom entendedor de suas meias palavras, que somos nós os inventores da duração, como se a seqüência de fatos fosse uma imposição da linguagem ao deparar a totalidade e, ato contínuo, relatá-la, seja isto feito do indivíduo para si mesmo ou para outro. A linguagem – pensamento – conta o mundo para quem a estiver percebendo. E o infinito nasce desse constante e imperativo relacionar que operamos na totalidade fatiada por nossa percepção incapaz de contemplá-la por inteiro.

    Particularamente adoro essa idéia e creio tratar-se de uma das ‘Verdades’ por que tanto se busca. Peirce mostra, inclusive, que, possuísse o universo apenas um único indivíduo – é claro – consciente, chegaria este à idéia de infinito pelo que ele, Peirce, chamou de semiose infinita, pois na falta de outra coisa, tal indivíduo único poria em relação suas próprias partes e, sendo estas já relacionadas a idéias, conceberia outras tantas acerca dessas idéias primeiras, outras mais acerca dessas segundas e assim por toda a eternidade. Isso se ele não chegasse logo à conclusão de ser ele mesmo composto de infinitas partes, ou de tantas quantas for capaz de peceber e, o mais importante, a partir destas intuir as demais.

    Para entender isto convido-o a conceber um ponto, sim, o ponto geométrico, de que se diz não possuir dimensão. Você é capaz de conceber algo que, sendo em potência gerador de objetos dimensionais, não tem ele mesmo dimensão nenhuma? Como todo mundo você desenhará para si a velha figurinha que, a rigor, não passa de minúsculo círculo e nela será capaz de ‘ver’ incontáveis partes, pois notará que o tal ponto-mini-círculo pode compor-se de infinidade de mini-círculos ainda menores e estes de outros tantos menorezinhos ainda etc. Enfim, o que quero dizer: por mais simples que seja o indivíduo, sempre haverá possibilidade de nele encontrarmos partes, infinitas partes e, dados incontáveis indivíduos (como o são, por exemplo, essas partes de qualquer indivíduo símples), entre eles somos instados a criar relações não mais contáveis do que as anteriores.

    Mas com tal não se quer dizer que o mundo ou o universo e infinito de fato. Há uma teoria cosmológica ainda sustendo-se sobre as próprias pernas que prega a finitude do universo, o qual se dobraria sobre si mesmo – não me pergunte como – e assim daria a impressão de infinitude. Infinito, portanto, se alguma realidade provável (no sentido de ser passível de provar-se) tem, é a de ser um de nossos pensamentos, uma de nossas intuições. O sentidos só nos fornecem singularidades, enquanto o pensamento intui a eternidade.

  11. Como já lhe disse antes, trata-se, na maior parte dos pontos expostos por você, de seu próprio pensamento filosófico, com elementos da filosofia cartesiana, é bem verdade, mas não do pensamento de Descartes. Alguns aspectos posso até entender como interpretações, inclusive pertinentes, do que leio nas Meditações, enquanto outros me parecem muito estranhos.
    Que você negue a relação causal, tudo bem. Mas onde o faz também Descartes? Nele há tanto o cogito, causado por Deus, quanto a idéia mesma d’Ele e outras tantas que são reconhecidas como sendo causadas. Como sempre, acho que você está discutindo o que Kant e outros, como Wittgensteisn, abriram mão de investigar e pelo motivo único de ser impossível: o que seria o mundo para além de nossas idéias. Ora, é-se tão livre para discorrer sobre o ‘em si’ do mundo que Descartes se arvorou até a negá-lo como parte do seu enredo para o encontro do cogito. É isso: posso afirmar a inexistência de causalidade no mundo do mesmo modo que posso negar sua existência, negá-la e sequer conceder, como Descartes, qualquer artifício demonstrativo para trazê-lo de volta. Posso afirmar qualquer coisa a seu respeito, mas sou tolhido quando se trata do que penso dele. Ocorra ‘lá fora’ o que ocorrer, o compreendemos e expressamos por meio da relação causal. Isto é como entendo o ponto. Já quanto a Descartes, o que seria a idéia de causa no contexto de sua intrincada teoria das idéias? Uma inata, uma criada por ele ou uma causada por outra coisa qualquer (inclusive outra idéia)? Quanto a ser a causalidade uma relação complexa, não tenho a menor dúvida: eu diria que toda a ciência, sem falar na filosofia, é uma tentativa copiosa de dar conta de tal complexidade.
    Bem, Descartes acredita que um efeito tenha algo da causa, mas no máximo o mesmo tanto, nunca a mais, quase sempre menos, muito menos. Em afirmando sermos criaturas de Deus, reconhece-nos menos perfeitos, do que o Criador, do qual talvez possuamos em volume semelhante apenas a vontade. Eis outro ponto exclusivamente seu, de seu pensamento filosófico próprio, Antonio Caetano, e não do cartesiano: a crença de ser do tamanho de Deus. Parece brincadeira que eu lhe atribua tal pensamento, mas é que não compreendi ainda se por ‘obra de Deus’ você entende o cogito ou o mundo mesmo, o universo inteiro. Imaginei que se tratasse dos dois, do cogito e do mundo, pelo que entendo que somos tanto do tamanho de Deus quanto do tamanho do mundo, entenda-se por ‘tamanho’ o que possível for.
    Essa história de vontade excedendo o entendimento, ambos dádivas divinas, tem cara de finíssima ironia, espécie de polimento dado à idéia de Kutka, deus dos Kamchadalos, povo de que ouvi dizer ao ler Feuerbach: para eles Kutka não passava de um estúpido, pois os criara num mundo inóspito (moravam no nordeste da Sibéria!), bondoso eufemismo este da estupidez para maldade. Descartes queria falar de idéias, mas tinha de falar de Deus por referir público exigentíssimo nesse ponto. Fez o possível para satisfazê-lo com os instrumentos de que dispunha (as provas causal e ontológica), mas aqui e ali não resistiu a umas beliscadas, como se dissesse: esse Deus de que vocês têm idéia é bem mau, pois que nos tenha feito imperfeitos de infinitas maneiras, mas nunca incapazes de evadir-nos – sempre! – do erro. Não é à toa que mais adiante, dando-se conta do peso de sua ironia, empreenda outra prova da bondade e providência divinas em nos dando vontade e entendimento em descompasso, o que, me parece, é como apagar fogo com gasolina. Por fim, parece claro que se nesse terreno, para Descartes, se tensão existe, seria antes entre uma vontade e outra, não entre entendimento e vontade: pois como pode o entendimento, como às vezes o faz, refrear a vontade? Teria de haver vontade no entendimento para conter a desmedida da vontade ou teria a vontade de possuir algum entendimento para deixar-se persuadir pelo entendimento. Seríamos, enfim, ‘cheios de vontades’ em pé de guerra umas com as outras, talvez a mais forte delas a que chamamos de entendimento, que é a vontade imensa de se dar bem. Como ela o consegue é função de uma diplomacia de guerra, depende da força de série de outras vontades que lhe estão no entorno.
    Volta então à cena a liberdade: a escolha, obra da vontade, é invariável: o melhor. O espertinho dirá: ora, posso escolher o pior, se quiser, pois sou livre. ‘O pior’, no caso, é só um signo do mais conveniente para o tal espertinho, pois lhe convém – e, por conseguinte, lhe é melhor – escolher o tal ‘pior’. A questão, aqui, é: o que resultará de tal escolha? Talvez algo de bom para o tal espertinho, visto que, mesmo lhe ocorrendo algo de desagradável, acreditou ter-me mostrado que é livre de fato por suas escolhas. Mas caso eu continue mostrando-me descrente de sua liberdade, ora, o pobre terá sofrido em dobro e, por conseguinte, pensará em como agir da próxima vez em circunstância semelhante. Eis aí o ponto: o espertinho passa a pensar, percebendo que a liberdade – assim como a concebeu – o condenou a duplo sofrimento, de modo a não errar tanto na outra vez (no fundo, na verdade, o que quer, o que sempre quis, é o melhor, tendo julgado mal o objeto de sua cobiça, essa de tentar convencer-me desse modo de que é livre). Portanto eu diria, ao contrário do que disse você: se estamos condenados a algo, isto é o conhecimento e o que a ele nos condena é a liberdade. O amor é outra história.

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