Liberdade 3

Waldemar fez um longo comentário em Liberdade 2 (clique aqui), que por sua vez é um comentário a Liberdade (clique aqui).

Achei mais proveitoso e cômodo abrir um novo post. Os trechos de Waldemar seguem em itálico.

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A história de ser a causalidade um ‘efeito’ do pensamento, ‘indevidamente’ aplicado à realidade: ora, apesar de criado a cada instante, esse mundo não teria causa (Deus)? Se é positiva a resposta, a demonstração de ser a causalidade algo exclusivo do pensamento deve tomar rumo diferente.

A questão aqui não é a causa como relação seja lógica, seja temporal, mas a causa como expressão de um “princípio de necessidade”, causa como implicação obrigatória, causa como fundamento de regra, causa como causa ontológica.

Se Deus é causa do mundo ou que tudo tenha em Deus a sua causa daí não decorre que a causalidade  exista ou subexista nas relações mundanas com o mesmo sentido de algo tirado do nada pela vontade de outro. Ao contrário, admitir Deus como causa primeira parece suficiente ao menos como causa ontológica. Todas as outras “causalidades” se reduzem a “relações complexas”.

Causa ontológica é uma coisa, causa como relação entre elementos ou eventos, é outra. Veja o caso da chuva (e lembre de suas aulas de capoeira: pergunta e resposta, ação e reação). As chuvas são uma resposta a uma série de fatores combinados. Não há uma causa stricto sensu, uma causa ontológica, para a chuva.

Outra coisa inexplicável para mim: a sua ‘birra’ para com a generalidade, o universal, bem como o seu afeto desmedido pelo particular. A sua – e de todo humano – maneira de articular o pensamento passa necessariamente por ambas as categorias. Não há como preferir uma a outra.

Mas eu não discordo que a generalidade – assim como a causalidade e a negação sejam categorias do pensamento e instrumentos fundamentais da ciência. O que eu afirmo é que só existem singulares ou particulares. “Os brasileiros” só existem como uma categoria mental com uma vaga representação na realidade. Mas de existente memso, no sentido forte, de algo que é, só o que existe sou eu , você, cada um.

Já a cera cartesiana me parece uma metáfora da substância, necessária, no contexto das Meditações, para a demonstração de Deus enquanto precisamente isto, substância – embora uma entre diversas substâncias: Descartes mostra-se muito incerto a esse respeito.

Aqui, não sei… Não sei se Descartes se mostra “incerto” de Deus ser mais uma entre tantas substâncias. Cartesianamente, acho que Deus seria A Substância. Mas mesmo assim, não sei… Substância (como eu acredito que Descartes a entende) está associada à duração, ao finito, e a impressão que tenho é que o Deus cartesiano é ao mesmo tempo imanentíssimo  em sua obra, mas absconso. Deus se mostra, mas não se deixa dizer –  seria isso, um tanto à maneira de Wittgenstein I.

A cera é, para mim – e só para mim, até onde sei (e sabemos que, neste terreno “originalidade” é quase sempre indicação de erro) –  o fundamento da prova “ontológica” da existência de Deus em Descartes. É a “experiência da cera” que mostra ao observador a “idéia de infinito” oculta sob a aparência sensível da mudança.

É também aí que eu vejo um indício da contingência de todos os fatos (não-necessidade e nesse sentido, não-causalidade): a cera poderia ter tomado qualquer uma do infinito de formas possíveis e ainda assim seria a mesma cera.

Quanto à liberdade, hoje começo a entender que Descartes não errou tanto quanto certos críticos o dizem. Mas nem ele creu que Deus jamais criaria algo menor do que ele próprio, apesar de acreditar termos recebido dele vontade infinita. Caso seja isso um dom, poderíamos compará-lo ao presente de grego, pois não nos deu também entendimento em grandeza compatível com tamanha vontade. No fundo a questão permanece na mesma desde há milênios, quando se descobriu que só o ignorante acredita ser livre, visto ser o dever a única coisa de que podemos libertar-nos, mas somente para em seguida depararmos um outro. Quando se conhece o certo, só há o dever, o dever para com realizá-lo.

Me surpreenderia se alguém que tenha alguma vez acreditado em Deus, pudesse ao mesmo tempo crer que sua Obra pudesse ser menor do que ele mesmo, ainda que distinta.

A meditação é a prova de que esse “descompasso” entre entendimento e vontade é “contornável”. Aqui é preciso fazer uma pausa e destacar esse aspecto do cartesianismo. A tensão fundamental em Descartes não é entre “razão e emoção” ou qualquer uma de suas variações correntes, mas entre vontade e entendimento. Isso é fundamental para se entender Descartes.

É interessante tb – e ninguém parece ter percebido – que é exatamente a vontade (que conduz a experiência do Cogito)a marca mais evidente de Deus em mim seja  tb a “causa” dos meus erros. E é engraçado que me ocorra agora que é a vontade que precipita o entendimento a intuir generalizações e vez de pacientemente perceber o encadeamento singular das coisas…

Imagino que esse entendimento “finito” é adequado a um mundo “finito”, onde tudo é singularmente finito, onde o preço da singularidade é a “finitude”.

Eu penso liberdade em contraponto à necessidade. A liberdade que descubro na cera e permeia o mundo é uma liberdade que está na origem das coisas, em Deus. Se “criar e conservar” são o mesmo para Deus e então o tempo é descontínuo pq a criação se reafirma em todo o seu vigor a cada instante, não há relação de necessidade entre os instantes: Deus é livre. Estamos condenados à liberdade. E para piorar, acrescentaria: à liberdade e ao amor.