Apostas

Uma dúzia de pessoas escolhidas ao acaso no meio da rua são no mínimo tão capazes de oferecer opiniões sensatas sobre assuntos morais e políticos quanto um grupo típico da intelligentsia.”

Do texto final de Os Intelectuais, de Paul Johnson, que postei aqui: clique

É uma aposta que viria bem a calhar nesses dias de eleição: será que é tão fácil assim?

O livro é de 1988. 22 anos depois, a situação dos intelectuais para mais cômoda.  O escândalo do Climategate talvez seja – sem trocadilho – apenas a ponta do iceberg de um novo surto de desconfiança.

A diferença do intelectual para o padre, diz Johnson, é que o intelectual não representa nenhuma tradição. Ele é muito mais um profeta do futuro, o arquiteto de um novo homem, de um novo mundo. Ele faz perfis arrasadores de Rousseau e Marx. Falta Heidegger, tarefa de que se encarrega Bernard-Henry Levy, em O Século de Sartre. Seguem, ironicamente, a receita de Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos que recomenda ver como vivem os filósofos e comparar com o que escrevem. A idéia de uma coisa em si inacessível na cabeça de um anão pontual e pudico sempre me pareceu perversamente possível. Assim como a vontade de potencia e o eterno retorno são idéias de um homem impotente e ansioso – o que, do meu ponto de vista, só torna Nietzsche melhor.

E não é dificil encontrar em todos o traço comum da violência, o desprezo pelo individuo em nome da humanidade. E, interessante: Rousseau se associa ao Terror, Marx a Lenin e Heidegger a Hitler. Essa loucura asiática, tirânica de refundar do zero – passar a régua, o rodo. E que, na verdade, bem ao contrário, é sintoma final de uma doença: quando se acredita refundar o homem, criar um novo homem, é porque o homem de fato, o homem existente já não tem mais valor.

E se a gente pensar que estamos a um passo de ver os homens como “unidades que consomem oxigênio e liberam CO2”, veremos que o homem nunca valeu tão pouco. Ao menos a luz de um certo discurso que se pretende dominante. Não é por acaso que a propaganda do “Apagão do Planeta” perguntava: “De que lado vc está?”. A pergunta é arrogantemente totalitária: quem não está do nosso lado está contra nós.

O escândalo da Igreja abafou a repercussão do Climategate, mas o estrago já está feito. Em 2010, os intelectuais estão melhor posicionados do que no tempo da primeira edição do livro de Johnson, mas o derretimento da tese do “aquecimento global” – que já até mudou de nome, assumindo o nome mais genérico de “mudanças climáticas” – talvez restabeleça um saudável ceticismo.

Não se trata de desprezar a produção de conhecimento secular ou científico, ao contrário, trata-se defender que o conhecimento não se ponha a serviço da política. A filosofia não pode ser reduzida a engenharia social.

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O problema é: conhecimento é poder. E conhecimento é um patrimônio humano. Exclusivamente humano. O único instrumento que o homem tem contra a força bruta. É o conhecimento que desvia rios, constroi casas, desenvolve espécies, animais, vegetais.

Então é óbvio que conhecimento é poder. A ciência é o que a gente poderia chamar de “conhecimento aberto”. Ela é feita num “código aberto” chamado matemática. Ou talvez fosse melhor dizer: matematização. Outra característica que me parece evidente da ciencia: a relação de teste ou prova da experiência empírica: toda teoria deve ter um correlato empírico. Isso é bastante salutar. É a materialização de um ceticismo otimista que está lá em Descartes: a razão atenta, desconfiada…

(Que a história não dê um testemunho favorável ao materialismo histórico é uma ironia determinante da guinada para o irracionalismo que os marxistas foram obrigados a dar)