Esboço de metafísica

Tudo é finito. Tudo. É de supor que eu mesmo serei finito. Nascer e morrer são os extremos da existência, disso que está em tudo: a Vida. A Vida é finita, como algo que está nas coisas, mas como algo que está em tudo sempre, desde sempre, então a Vida é infinita.Ou talvez fosse mais prudente dizer: “A Vida parece inesgotável”. Ela não tem um rosto, mas está em tudo, ela é o movimento que anima o mundo.

(Agora, bruscamente me ocorre a cadeia: “Deus, Mundo, Vida, Consciência”. Ou “Deus, Terra/Fogo, Agua/Ar, Luz”).

A Vida está em tudo. Cada ente singular é finito, mas a Vida é infinita. Ou mais prudente é dizer: “Inesgotável”. Um ente finito só tem uma vontade: durar. Durar o mais tempo possível. Durar e se reproduzir são os autoevidentes “sentidos da vida”. Durar e reproduzir. Egoísmo e Desejo são os pilares da Vida, um yin e yang dito de outro modo. Egoísmo e Desejo são da Vida. Sem esse impulso para sobreviver e reproduzir não há Vida, e é sobre esses dois impulsos que a vida sedimenta sua eternidade.

Por querer durar seja pela sobrevivencia, seja pela reprodução, a Vida segue um principio de economia: obter o máximo de rendimento com um mínimo de esforço. Poupar para ter. Gastar menos do que produz. Enfim, um principio rudimentar de economia orienta todo ente finito: poupar para durar mais tempo. É isso que busca todo ser finito. O homem, no limite, procura a eternidade. A pedra filosofal, a iluminação, a vida eterna.

E é exatamente aí que começa o problema. Algo em mim (e admito que se possa dizer: “Sim, algo em você, Antonio, e em você apenas”), algo em mim pede, exige que eu renuncie ao Egoísmo e ao Desejo para alcançar a plena Consciência que me distingue dos outros seres finitos (ou ao menos é essa a minha impressão). Ou seja, algo em mim pede que eu renuncie à Vida ( ao Egoísmo e ao Desejo) em favor da Consciência.

O que me obriga a perguntar: O que é a Consciência?

Eu desconfio que a Consciência é algo que brota inesperadamente da Vida em direção à Origem. Não mais “para frente”, mas “para trás” (ou para dentro, para alto ou para baixo, mas já mão mais para frente). Há uma inegável tensão entre a Consciência e a Vida.

(Inesperadamente sim: Deus como o concebo pode, sim, surpreender-se com sua Criação!)

É o grau de renúncia ao Egoísmo e ao Desejo que define as leis, as civilizações, o humano, enfim.

O grau zero de renúncia é a Natureza. E o que prevalece como a única Lei da Natureza? Como eu já disse, uma espécie de principio inercial, que busca o maximo de rendimento com o mínimo de esforço. Lindo, não? Perfeito, não? Sua tradução na Natureza é o domínio da Lei do Mais Forte. Óbvio, se o principio é durar, o que implica gastar o menos possível de energia e se arriscar o menos, o épico embate entre o touro e o leão só se dará em circunstâncias especialíssimas, quando não for possível evitá-lo. O leão atacará sempre preferencialmente o mais fraco, o mais desprotegido. E assim é a Vida.

O respeito pelo mais fraco é um princípio humano, moral – é o que cria um senso de humanidade. É também o menos natural de todos. Se olharmos ao longo da história conhecida, predomina uma ética que tende a aceitar a Vida como ela é e a de algum modo justifica-la. O Império da Lei contra a Tirania do Mais Forte (seja um tiranete, seja ele o milenar imperador) é o incomum, e não a norma. Ocorre apenas que, de duzentos anos para cá, essa noção tão “ocidental” foi aos poucos dominando o planeta a ponto de não sabermos de outro tempo na história humana em que cada homem tivesse uma noção tão forte da existência de “outros” além daqueles que ele chama de parentes, conterrâneos, vizinhos. A humanidade nunca foi tão humanidade como agora por conta de um surto de invenção de 200 anos.

Por isso me soa tão lúgubre, tão do mal as lamúrias de Heidegger: o que são afinal 200 anos? Por mais que nossa herança, a levar em conta o Timeu, remonte a Atlântida, a verdade é que o que se construiu nos últimos 200 anos não tem precedente na história.

O conceito de escravidão decaiu porque a máquina revelou-se mais produtiva, afinal. Só isso, a idéia comum de que ninguém pode ser escravo, que todos são livres, só isso já é um salto, um ganho, um ineditismo que torna sem comparação este momento da humanidade.

Dito de outro modo: por milênios, fomos tiranias rurais. De repente, nos tornamos repúblicas urbanas. Crescemos para o alto. Para o alto sobem os prédios, os aviões, os satélites, as naves. Para frente e para o alto.