esboços de metafísica

O apego às coisas quer alterar a ordem do tempo: quer que o passado permaneça no presente.
Alterar a ordem do tempo é já da esfera do divino. Do homem se espera que reverencie o passado como passado e viva o presente com as coisas do presente.

Então há algo de profano, de antinatural mesmo, em se apegar às coisas ou ao passado. As coisas também têm que passar. É natural. E profano por que “alterar a ordem do tempo” é coisa para Deus, não para os homens.

De profano (será essa a a palavra?) e de doentio, de neurótico – isso de reter, de interromper o fluxo, de trazer para o presente as mágoas do passado.

Quem quer o passado no presente não deixa que nada no presente cresça.

Tem um trecho de Mateus que eu adoro: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

Ou como se diz “por aí”: “Só por hoje”.

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Por outro lado, é sobre esse “material” que a arte trabalha (usando uma ferramenta poderosa que é a imaginação). A arte transforma a memória em ficção, em narrativa.

Acho que Joseph Campbell concordaria com essa idéia. Campbell é o cara dos mitos e dos sonhos, que enxerga uma coisa comum em todos os mitos: a narrativa do herói em buscade algo que não está no mundo (mas em outro mundo), mas pode modificá-lo, alterá-lo ou restituir-lhe a grandeza perdida. Estou lendo ainda “O Herói de Mil faces”.