elementos de metafísica

Rose, dos comentários em esboço de metafísica, me mandou por e-mail:

Carta de Gil Vicente escreveu ao Rei para contestar o papo dos frades . Estes diziam que o terremoto em Lisboa era castigo de Deus. Legal este texto.
Meio intuitivo, meio mergulhado no periodo entre o teocentrismo medieval e o renascimento. Gil era meio termo entre fé e antropocentrismo.

“O altíssimo e soberano Deos nosso tem dous mundos: o primeiro foi de
sempre e pera sempre que é a sua resplandecente glória, repouso,

permanecente, quieta paz, sossego sem contenda, prazer avondoso,
concórdia triunfante, mundo primeiro.
Este segundo em que vivemos a sabedoria imensa o edificou polo
contrairo, scilicet, todo sem repouso, sem firmeza, sem prazer seguro, sem
fausto permanecente, todo breve, todo fraco, todo falso, temeroso,
avorrecido, cansado, imperfeito pera que por estes contrairos sejam
conhecidas as perfeições da glória do segre primeiro e pera que milhor
sintam suas pacíficas concordanças.”
Como a imperfeição (natural) existe para que se possa melhor reconhecer
a perfeição (divina), o Altíssimo
estabeleceu na ordem do mundo que uas cousas dessem fim às outras e
que todo género de cousa tivesse seu contrairo como vemos que contra a
fermosura do verão o fogo do estio, e contra a vaidade humana a
esperança da morte […] e contra a firmeza dos fortes e altos arvoredos a
tempestade dos ventos, e contra os fermosos templos sumptuosos edifícios
o tremor da terra que per muitas vezes em diversas partes tem posto por
terra muitos edifícios e cidades. E por serem acontecimentos que
procedem da natureza nam foram escritos, como escreveram todos
aqueles que foram por milagre
”.

“E porque nenhua cousa há i debaixo do sol sem tornar a ser o que foi e o
que viram desta qualidade de tremor havia de tornar a ser per força ou
cedo ou tarde nam o escreveram. Concruo que nam foi este espantoso
tremor ira Dei mas ainda quero que me queimem se nam fizer certo que
tam evidente foi e manifesta a piedade do senhor Deos neste caso como a
fúria dos elementos e danos dos edefícios.”

http://www.uefs.br/nep/arquivos/publicacoes/1531_gil_vicente_judeus_e_a_instauracao_da_inquisicao_em_portugal.pdf

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