crises

É interessante comparar as duas crises, a americana e a européia.

De cara, a americana me parece uma crise de “crédito pessoal” – que, claro, tem a ver com os deficits monstruosos do Estado, mas que sempre teve o foco primário na dívida pessoal. Na Europa, a coisa é aparentemente toda estatal. Claro, deve ter muita gente pendurada na Europa, tanto quanto na América, mas o comprometimento privado parece bem menor.

São duas vertentes, dois modos de ver a economia. E talvez, em essência, a gente pudesse dizer: dois modos de ver a natureza. Que a lei do mercado é uma lei natural, variação da única lei da vida, que é a lei do mais fácil, do mais forte. Ou até por outro lado: a lei do mais forte é uma lei econômica, ou cujo objetivo é claramente economico: poupar energia. Quero dizer: o mais forte ataca o mais fraco porque é mais fácil vencer. Óbvio. O mais fraco sabe e aceita isso – e corre o quanto puder. Dentro do grupo, o mais fraco é exatamente o excedente necessário para manter a espécie. Os velhos e os órfãos são os mais fracos de qualquer manada e o alvo primeiro dos predadores, imagino.

O mercado exerce essa lei com precisão notável. Na selva da economia, milhares de ações minusculas se articulam de modo voluntário (e portanto sempre com margem para o imprevisto, o impensado, o improviso) em multiplas redes descentralizadas – a imagem da internet é uma espécie de “estado de arte” do mercado. A internet não é o fim, ou outro, mas o ápice, a transfiguração do mercado. A descentralização e liberdade de ação dão uma velocidade de resposta às demandas que é o que garante a coisa funcionando: ele nunca quebra de todo – ou, como se diz: “alguém sempre ganha com a crise”.

O mercado é cruel como é cruel a natureza. Na natureza, jacaré engole urubu com pena e tudo. Sem tempero.

Há uma vertente que acredita que esse vigor caótico e mesmo cruel é da essência da vida e da natureza, onde tudo é finito e passageiro e por isso só tem um ímpeto primordial: manter-se vivo o máximo de tempo possível. Sobreviver e reproduzir é o que exige a vida daqueles que habita. “Crescei e multiplicai-vos” pode ser ouvido como uma tradução dessa lei em palavras mais doces – que  expressam uma outra lei –  a lei do amor, que impele o homem a caridade, ao cuidado do mais fraco – sem se  importar com seu nome ou origem.

Há outra vertente que duvida da “naturalidade” do mercado e interpreta sua amoralidade como imoralidade. O mercado é mau porque espelha o que há de pior no homem: a ganância, o poder, o logro. A esse mercado há que se impor não apenas o rigor da lei, mas a permanente vigilância. É preciso direcionar essa fúria, desmonta-lo, despi-lo de todo o seu carater “voluntarioso” e remontá-lo inteiramente encadeado por razões claras e evidentes – a máquina. A máquina burocrática vestirá o mercado com sua lógica utilitarista alcançando um rendimento máximo e perfeito. É a utopia.

Creio que há nessa visão uma percepção da natureza que é essencialmente negativa, mas que se disfarça expondo uma idealização da natureza, uma “natureza antes da Queda”  ou “antes do Homem”, onde os leões eram vegetarianos.

Uma vertente crê que há uma relação de imanência entre a consciência e o mundo, uma relação de verdade, e que cada homem, e não só cada homem, mas cada coisa, cada mínimo detalhe, é de uma beleza espantosa. Segundo essa vertente, “não há fatos negativos”. Um dualismo que se expressa não como “sim/não”, mas “e/ou”. Segundo esse olhar, a vida é abundante, selvagem, vigorosa – calculável, mas imprevisível.

A domesticação dos animais certamente deve ter começado com homens tomando para si os filhotes desgarrados e cuidando deles em vez de comê-los.

Enfim, tentando retomar esse longo devaneio, as duas vertentes reconhecem a “crueldade” da natureza e do mercado.  Uma vertente quer “consertar” o mercado. Outra, aceita-o como um dado da natureza e busca corrigir seus efeitos. É a diferença entre a revolução e a reforma.

Eu como Rimbaud, começo a achar que a chave de tudo é a caridade.