nuvens

… as nuvens vêm se avolumando em rolos cinza chumbo: de novo vai chover.Vêm como se fossem entrar pela minha janela, tomando cada pedaço mais claro de céu, até dominar toda a tela.

Gosto dessa chuva que se anuncia no ar mais úmido, no corpo que se altiva de um frio súbito e se põe mais alerta, à espera. Sim, algo se anuncia: a chuva que vem se quer definitiva (e pode mesmo ser letal, como tem sido este ano).

Eu gosto dessa chuva. Não falo de seus efeitos sobre a cidade. A chuva talvez nem saiba da cidade, pois a cidade é um cisco em face do que é a chuva que agora ocupa todo o céu, ainda só nuvens, agora só densa e homogenea cor de chumbo.

(“céu de chumbo” me soa como um “enigma alquímico”)

Não será uma chuva má. Ela começa a chuviscar delicada, e vai umedecendo tudo, aos poucos, devagar. Não é exatamente cedo, então o silencio que se faz é um pouco como se o ar mais denso invisivelmente absorvesse o som do mundo. E nesse mundo aquietado , uma brisa que sinto aqui faz bailar toalhas ao longe.

É o mundo  sendo limpo como um cristal delicado em mãos cuidadosas.

* * *

Essas janelas ao longe, tantas, mínimas, presentes, mas distantes, reais, mas não invasivas – elas me dão a cota de humanidade que preciso. O prédio defronte : 9 vezes 19 janelas sob um fundo cor de pessego. Daqui não posso distingui-los, mas certamente cruzo com muitos diariamente. Somos espacialmente intimos – milhares ordenados em quadradinhos verticais no espaço de um quarteirão – e nem nos conhecemos.

Nesse sentido, é possível dizer: “Falta-nos uma igreja.” Algo que congregue, que junte. Falta a ágora.

Já sonhei muito q a internet fosse essa ágora. Ela é. Mas é preciso que tudo resulte em corpo, em encontro, em gente em frente a gente. A internet favorece isso tremendamente, essa interação entre individuos. E também a replicagem de eventos coletivos, aquele “todo mundo junto hoje” que já tentaram algumas vezes. Mas sempre é preciso que no final as coisas se materializem em um “corpo”.

Nesse sentido, é possível falar em “comunhão”, “comunhão dos corpos”.