corpus christi

“Corpo de Cristo. Corpo de Cristo. Corpo de Cristo…” Lembro do padre salmodeando a cada um que aparecia à sua frente com a boca escancarada como quem fosse ser vacinado com a Sabin – pelo nome, outro benfeitor judeu – para receber a a delicada rodelinha branca e translúcida com gosto de nada – e já a expressão “gosto de nada” soa metafísica – que representava de modo misterioso – e o que afinal vem a ser um “mistério”? – o corpo de Cristo. Aquilo, aquella fila de vacina – vacina contra o pecado? – fazia parte do aspecto pratico do sacramento da Comunhão. “Tomai e comeI: este é o meu corpo e este é o meu sangue”. O pão e o vinho, corpo e sangue de Cristo – o pão e o vinho que estava alim representados – que pena! – pela hóstia – tão sem sabor, tão sem sabor como todo símbolo, resplandecente como um símbolo, translúcida e sabendo a nada – mas por que representar o pão e o vinho, tão básicos, tão a mão? (Claro, é mais fácil me dar uma rosquinha quase transparente sem sal ou açucar do que dividir comigo o pão e o vinho. Sai mais barato – mas essa explicação é ela também muito pobre. Barata demais. Toda representação implica um distanciamento. Uma elaboração. Um misticismo, um mistério. Mas há essa outra missa, mais carnal, mais pão e vinho – que é o, chamemos assim, mito da comunidade cristã que “imita Cristo” e vai ao mundo, “sem se sujar, menino!” – esse mito fica para trás, ele  se dilui na impessoalidade.

Or, tout dernièrement m’étant trouvé sur le point de faire le dernier couac ! j’ai songé à rechercher la clef du festin ancien, où je reprendrais peut-être appétit.
La charité est cette clef. — Cette inspiration prouve que j’ai rêvé !

A caridade – e essa intensidade de sonho – se perderam, não há mais a folia do partilhar a mesa, do misturar rico e pobre, o limpo e e o sujo. Um missa mais campal, enfim,  tudo se diluiu num rito sem mística e sem folia

(continua outra hora)