o mercado

A insanidade humana – sua arrogância – se expressa na tentativa de “acabar com o mercado”. Porque o mercado é tão natural quanto um terremoto ou um pintassilgo. Não se acaba com o mercado – o lugar das demandas individuais e coletivas – a feira – isso é a própria representação da economia.

O que o capitalismo fez foi arranjar um modo seguro de transformar poupança em crédito. Não se entesoura mais – sempre em pânico de ser roubado. Não sei até que ponto essa síntese coincide com algum estudo real, mas me parece claro que o dito capitalismo ou “isso que vivemos” se sustenta no crédito como “confiança comum no futuro”.

As pessoas decididamente não se dão conta da complexidade minuciosa do mundo em que vivem. Há uma magnifica rede de relações no simples ato de ir comprar um molho de salsa no hortifruti. E tudo funcionando a crédito, cada vez vemos menos dinheiro. E o crédito – o crédito farto, a mútua confiança – é a verdadeira – no sentido de “a única justa” – distruibuição de riquezas.

O crédito é o chão, a realidade, da justa divisão de oportunidades. lembro de uma parábola onde o patrão deixa com cada servo uma quantidade igual de dinheiro e cada um deles investe de um modo. O dinheiro não foi dado. Foi deixado em conta, sob os cuidados. Houve quem o multiplicasse, houve quem apenas o escondesse. E haverá mesmo quem o perca. Para esses haverá sempre a caridade, o pão e o vinho da missa diária, a missa campal onde os que precisam vão buscar ajuda.

E nesse sentido, a missa é o antimercado.

(Isso sim é possivel fazer: contrapor à natureza uma invenção humana que amenize os seus efeitos)

A missa devia ser o lugar onde se partilha o excedente, onde eu vou doar minha alegria e minha riqueza. Não uma confraternização entre os que já têm, mas entre os que têm e os que perderam – ou nem sequer chegaram a construir.

(A coisa mais parecida com uma missa de verdade que eu já assisti na vida foi uma reunião de AA)

(continua outra hora)