deus, romance moderno e a falácia das definições

No blog do Yuri Vieira (clique para ler):

“A experiência no fundo da dúvida é a essência da impudicícia carnal, anímica e espiritual. Por isso não se fazem experiências no esoterismo ou no hermetismo cristão. Nunca se usa o recurso a experiências para se sair da dúvida. Tem-se a experiência, mas não se fazem experiências. O mundo espiritual não aceita experimentadores. Nele procura-se, pede-se, bate-se à porta, mas não se procura abri-la à força; espera-se que ela seja aberta. (…) Deus não é um objeto e não é também o objeto do conhecimento. Ele é a fonte da graça que ilumina e revela. Ele não pode ser conhecido, mas pode revelar-se.”

Valentin Tomberg, Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô

Lá também encontrei isto, que li como um elogio à crônica:
“Creio que hoje um romance plasmado “como no Oitocentos”, que abrange uma história de muitos anos, com uma vasta descrição de sociedades, desemboca necessariamente numa visão nostálgica, conservadora. (…) Penso que não por casualidade a nossa época é a do conto, do romance breve, do testemunho autobiográfico: hoje, uma narrativa verdadeiramente moderna só pode canalizar a sua carga poética para o momento (sem importar qual) em que se vive, valorizando-o como decisivo e infinitamente significante; deve por isso estar “no presente”, dar-nos uma ação que se desenvolva toda sob os nossos olhos, unitária no tempo e na ação como a tragédia grega. E quem hoje pretende ao contrário escrever o romance “de uma época”, se não faz retórica, acaba por fazer gravitar a tensão poética sobre o “antes”.”

Italo Calvino, Por que ler os clássicos

Mas, na verdade, acho essas “grandes definições” uma tolice. Fico com François Mauriac, lido também lá, no blog do Yuri:

“Todo romancista deve inventar sua própria técnica, eis aí a verdade. Cada romance digno de tal nome é como outro planeta, quer seja grande ou pequeno, com suas próprias leis, assim como possui sua flora e sua fauna. Assim, a técnica de Faulkner é certamente a melhor para pintar o mundo de Faulkner, sendo que o pesadelo de Kafka criou seus próprios mitos, que o tornam comunicável. Benjamin Constant, Stendhal, Eugène Frometin, Jacques Rivière, Radiguet, todos usavam técnicas diferentes, tomavam liberdades diferentes e impunham a si próprios tarefas diferentes. A obra de arte, em si, quer seu título seja Adolphe, Lucien Leuwen, Dominique, Le Diable au Corps, ou À la Recherche du Temps Perdu, é a solução quanto ao problema da técnica.”

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