wittgenstein, por olavo de carvalho

“A doutrina de Wittgenstein sobre um pensamento que se pensa a si mesmo sem necessidade de um sujeito humano torna-se assim uma profecia auto-realizável. Creio que Wittgenstein foi um gênio da inconsciência, um herói da covardia intelectual, o criador de uma doutrina que atinge os cumes de uma estupidez quase inimaginável.

No mundo wittgensteiniano que nos aguarda, os livros não serão lidos senão por eles mesmos, demitindo os leitores humanos. O conhecimento se tornará uma figura de linguagem para designar os depósitos de dados que não serão conhecidos por ninguém, e a cultura se tornará um museu eletrônico jamais visitado. Certamente, haverá sempre alguns indivíduos que farão esforços para permanecer conscientes, e mesmo a elite dominante terá certa necessidade dos serviços deles. Mas não consigo nem imaginar os abismos de sofrimento que eles terão de suportar.”

O projeto de Wittgenstein, por exemplo, termina mal duas vezes: o primeiro projeto, o da linguagem absolutamente desprovida de ambiguidades, desprovida de qualquer elemento intuitivo, não dá em nada e então Wittgenstein passa para o segundo projeto, o da crítica da linguagem comum. Ora, só há uma forma de fazer a crítica da linguagem: a partir de algo que não é linguagem, como os dados dos sentidos, por exemplo. Ora, não é possível uma linguagem absolutamente coerente, em todos os passos, pois, se assim o fosse, dispensaria os fatos: ou seja, seria totalmente coerente na medida em que não falasse de coisa nenhuma. E de fato é aí onde chega Wittgenstein: por um lado temos uma linguagem totalmente coerente e formalizada, mas sem conteúdo algum; por outro lado há um conteúdo anárquico, atomístico, sem qualquer elo interior, que ele chama de “fatos”. É claro que isso é um projeto abortado.

“O mundo é o conjunto dos fatos. Fatos são alterações de um estado de coisas.” Estas palavras poderiam constar de qualquer manual de jornalismo, mas são o começo do “Tractatus” de Ludwig Wittgenstein. O dano que esta obra trouxe à inteligência mundial é incalculável. As viseiras mentais que o molde jornalístico americano impõe a leitores e profissionais são apenas uma parcela ínfima da herança mórbida da escola de Wittgenstein e Russel.”

Olavo de Carvalho

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Entendo em parte a crítica do Olavo, mas parece que Celina (clique aqui para ver) reuniu trechos de textos distintos. Queria lê-los todos. No atacado, gosto da crítica dele à filosofia. No varejo, discordo da interpretação que ele faz das Meditações de Descartes.

Eu li o Tratactus. Não o entendi inteiramente e tenho minhas dúvidas de que isso seja realmente possível. Gosto de certos trechos, da “física” e da “metafísica”, mas do principal, a lógica, entendo muito pouco, quase nada.

Da “física”, gosto desse mundo que é determinado por todos os fatos e que por sua vez determina cada fato seguinte. Me dá a impressão de um mundo em que as coisas são até certo ponto previsíveis, mas seus efeitos, imprevisíveis. Ou seja: a totalidade dos fatos, que é o mundo,  permite prever que é possível que A ocorra, mas uma vez que A ocorra, ao somar-se à totalidade dos fatos, seu efeito é imprevisível. Se essa interpretação é correta, essa descrição do modo como o mundo opera assemelha-se ao que se convencionou chamar de “tempo discreto” cartesiano, onde a conservação do mundo por Deus equivale a uma contínua recriação, de tal maneira que não existe uma ligação causal entre um momento e outro.

Gosto também deste aforisma: “o mundo se resolve em fatos”. Tem algo de quântico nele, mas de muito prático também. É uma “tautologia boa”. Mas, é aquela coisa, W. dá margem para muito “acho que entendi”.

Também gosto da maneira como ele aborda o “indizível”, mas acho a conclusão “tautológica” final falsa, pq é justamente sobre o que não se pode falar – ou melhor, sobre o que não se deve falar – que a nossa curiosidade avança. Só nos interessa o impossível porque talvez saibamos que a verdade é inesgotável e o único limite que existe somos nós. Nesse caso caso, quem busca por mais verdade, busca a si mesmo.