a borboleta é uma flor que voa

“A borboleta é uma flor voadora”,  diz o Webmonkey.

E nós?

Um balé. Um balé sinfônico (porque tem algo de cósmico), uma delicada coreografia (porque é humanamente divino) que terá de incluir, além de todas as peripécias de nossas trajetórias, também o tempo que passamos de pé,  bem perto, entre silêncios iluminados de sorrisos radiantes e palavras que são como flores voando, borboletras bem concretas, pois é a vontade de Deus, só pode ser, que a gente se encontre assim, milimetricamente por acaso, nossas almas guiando nossos corpos um para o outro, partindo de pontos distintos da cidade e convergindo pouco a pouco, sincrônicas, sintonizadas, uma só alma guiando dois corpos que nem pensam nisso, que desejam, mas não esperam, apenas andam, cumprindo seus afazeres.

(não inconsciente, mas supraconsciente, não aquém do corpo, mas além)

Um balé cósmico, traçado no chão, geométrico e geográfico, mas calculado do ar: é a gente brincando de se achar, é Deus brincando de se mostrar.

(Pois, se eu demorasse mais dez segundos, a gente não se encontraria – bastava que eu tivessse parado para comprar aquela xícara. Mas, se eu não tivesse entrado para olhar xícaras e parado para pensar se eu as compraria ou não – eu me anteciparia o meio minuto bastante para que a gente também não se visse)

Olha, da minha parte, é como se eu dançasse em torno das coisas para acertar meu passo com o seu, ao som de uma música que só nós ouvimos. É por isso que  me sinto discretamente incendiado, protagonista com você de uma ironia de deus, do espírito santo, como se deus em nós brincasse de se mostrar, um Deus que assovia melodias e nos põe para dançar do mesmo jeito que a gente espanta as abelhas – que certamente nos confudem com flores porque estamos com cara de cheirosos – nós apenas  sopramos as abelhas e elas se vão, sossegadas: “Ah, eles não são flores…”.

E aí o que fazer? ora: viver esse momento – assim parados na rua sob o sol inesperado do inverno com cara de verão.

Podemos casar. Podemos ficar dias sem nos ver. Um encontro desses nos permite tudo, da súbita ousadia ao renovado adiamento. Um encontro assim é renascer, limpo e nu, de novo, novo: Adão e Eva redimidos.

Para mim, um cartesiano apaixonado por trajetórias, cálculos, sincronias e simetrias, um encontro desses é pura poesia – tem música, tem balé, tem palavra, e não tem autor! : Nijinsky, Descartes e Gershwin tudo misturado sob esse sol dadivoso.