a vida

é tão engraçada a vida, tão delicada… talvez não exista nada mais insignificante do que esses recados que trocamos pelo celular e que de tempos em tempos somos obrigados a apagar. não são, nem querem ser, obras literárias, resumos grandiosos e eloquentes de um amor que, como qualquer amor, se pretende eterno. nada, quase sempre são só umas poucas palavras, muitas já parte de um código íntimo capaz de sugerir enormidades, mas apenas para nós dois. coisas feitas para alegrar e esquecer, pedacinhos de afeto que se comem ainda quentes… mas acontece q eu, logo eu que não tenho mão pra plantas nem pra bichos, que não sou dado a fotos e desconfio dessa obsessão pela história, eu, enfim, me esforço por guardar esses recados na memória precária desse meu celular vagabundo que até hoje não sei se me permite tirá-los de lá.  tenho quase três anos de recadinhos selecionados e agora mesmo sem nenhuma motivação especial os fui passando como um album de retratos ou uma sequencia animada de desenhos que vai simulando um filminho…  que graça! eis-nos ali contados em poucas palavras tão banais e singelas, mas tão nossas – algumas mesmo só nossas! (udsh!, por exemplo, quem saberá o que seja? ninguém! porque eu não conto, nem contarei…). e então – ante a precariedade de tudo – uma delicada calma me acalenta a alma: você me ama, sim. udsh! os erros, as vacilações, as incertezas, os grandes gestos, os gozos – sim, tudo de grande que parece nos erguer ou afundar – tudo se mostra tão insignificante em face desses recadinhos – mais ou menos com se agora eu olhasse para o lado e visse sentado ali na poltrona um anjo tranquilo e mudo. é ali que está dito tudo, naquilo que se pensava feito para o esquecimento, ali duramos, como dois pequenos diamantes.