mario vargas llosa

Peguei no blog do Rodrigo Constantino (http://rodrigoconstantino.blogspot.com) este trechos do livro de Llosa, “Os cadernos de dom Rigoberto”. Não li tudo dele, mas pelo pouco que li passei a considerá-lo o melhor de todos os escritores latino-americanos, a frente mesmo do meu querido Cortazar. Acho que Llosa combina como ninguém domínio da técnica e estilo. Seu texto é sempre claro e, ao mesmo tempo, surpreendente; grave e irônico; profundo, mas fluido. isento de maneirismos, mas muito próprio. Enfim, seguem os trechos…

“[…] o feminismo é uma categoria conceitual coletivista, isto é, um sofisma, pois pretende encerrar, dentro de um conceito genérico homogêneo, uma vasta coletividade de individualidades heterogêneas, nas quais diferenças e disparidades são pelo menos tão importantes (seguramente mais) quanto o denominador comum clitorídeo e ovárico. […] Para apreender a realidade última e intransferível do humano, neste domínio, como em todos os outros, há que renunciar ao rebanho, à visão tumultuária, e recolher-se ao individual. Resumindo, direi à senhora que todo movimento que pretenda transcender (ou relegar a segundo plano) o combate pela soberania individual, antepondo-lhe os interesses de um coletivo – classe, raça, gênero, nação, sexo, etnia igreja, vício ou profissão -, parece-me uma conspiração para enredar ainda mais a maltratada liberdade humana. Essa liberdade só alcança seu pleno sentido na esfera do indivíduo.”

“Nada contribuiu tanto nestes tempos, mais ainda do que as ideologias e religiões, para promover o desprezível homem-massa, esse robô de reflexos condicionados, e para a ressurreição da cultura do primata de tatuagem e tapa-sexo, emboscado atrás da fachada da modernidade, quanto a divinização dos exercícios e jogos físicos operada pela sociedade dos nossos dias. […] O esporte, na época de Platão, era um meio, não um fim, como voltou a ser nestes tempos municipalizados da vida. […] Onde está o heroísmo em virar a canjica ao volante de um bólido com motores que fazem o trabalho em vez do homem, ou em retroceder de ser pensante a débil mental, com miolos e testículos encolhidos pela prática de atalhar ou fazer gols por empreitada, para que multidões insanas se dessexualizem com ejaculações de egolatria coletivista a cada tento marcado? As atividades e aptidões físicas chamadas esportes não aproximam o homem atual do sagrado e do religioso, afastam-no do espírito e o embrutecem, saciando seus instintos mais ignóbeis: a vocação tribal, o machismo, a vontade de domínio, a dissolução do eu individual no amorfo gregário.”

“Como o mundo avança aceleradamente para a desindividualização completa, para a extinção desse acidente histórico, o reinado do indivíduo livre e soberano, que uma série de acasos e circunstâncias havia possibilitado (para um número reduzido de pessoas, é claro, e em um número ainda mais reduzido de países), estou mobilizado para o combate, com meus cinco sentidos e durante as vinte e quatro horas do dia, a fim de retardar o máximo que puder, no que a mim concerne, essa derrota existencial. […] É verdade: sou um antissocial na medida das minhas forças, que por desgraça são fraquíssimas, e resisto à gregarização em tudo aquilo que não ameaça minha sobrevivência nem meus excelentes níveis de vida. Tal como você está lendo. Ser individualista é ser egoísta (Ayn Rand, The virtue of selfishness), mas não imbecil.”

“Se alguma coisa eu sou nessa matéria, sou agnóstico. Desconfiado do ateu e do descrente, a favor de que as pessoas creiam e pratiquem uma fé, pois, de outro modo, não teriam vida espiritual alguma e o selvagismo se multiplicaria. A cultura – a arte, a filosofia, todas as atividades intelectuais e artísticas laicas – não substitui o vazio espiritual que resulta da morte de Deus, do eclipse da vida transcendente, exceto em uma reduzidíssima minoria (da qual faço parte). Esse vazio torna as pessoas mais destruidoras e bestiais do que normalmente o são. Ao mesmo tempo que sou a favor da fé, as religiões em geral me incitam a tapar o nariz, porque todas elas implicam o rebanhismo processionário e a abdicação humana e pretendem enredar os desejos. […] Eu fico em minha contradição, que é também, afinal, uma fonte de prazer para um espírito dissidente e inclassificável como o meu. Contra a institucionalização dos sentimentos e da fé, mas a favor dos sentimentos e da fé.”

“O senhor e eu sabemos, amigo siracuso, que o fetichismo não é o ‘culto dos fetiches’ como diz mesquinhamente o dicionário da Academia, mas sim uma forma privilegiada de expressão da particularidade humana, uma via de que o homem e a mulher dispõem para traçar seu espaço, marcar sua diferença em relação aos outros, exercitar sua imaginação e seu espírito antirrebanho, ser livres. […] a descoberta do papel central do fetichismo na vida do indivíduo foi decisiva em meu desencanto com as utopias sociais – a idéia de que era possível, coletivamente, construir a felicidade, o bem, ou encarnar qualquer valor ético ou estético -, em minha passagem da fé ao agnosticismo, e na convicção que agora me anima, segundo a qual, já que o homem e a mulher não podem viver sem utopias, a única maneira realista de materializá-las é transferi-las do social para o individual. Um coletivo não pode organizar-se para alcançar nenhuma forma de perfeição sem destruir a liberdade de muitos, sem levar de roldão as belas diferenças individuais em nome dos pavorosos denominadores comuns.”

“Na verdade, por trás de suas arengas e bandeiras em exaltação a este pedacinho de geografia salpicado de balizas e demarcações arbitrárias, onde vossa senhoria vê personificada uma forma superior da história e da metafísica social, não há outra coisa senão o astuto aggiornamento do antiquíssimo medo primitivo de emancipar-se da tribo, de deixar de ser massa, parte, para transformar-se em indivíduo. […] O cordão umbilical que os enlaça através dos séculos chama-se pavor ao desconhecido, ódio ao diferente, rechaço à aventura, pânico à liberdade e à responsabilidade de inventar-se a cada dia, vocação de servidão à rotina, ao gregarismo, recusa a descoletivizar-se para não ter de enfrentar o desafio cotidiano que é a soberania individual. O patriotismo, que, na realidade, parece uma forma benevolente do nacionalismo – pois a ‘pátria’ parece ser mais antiga, congênita e respeitável do que a ‘nação’, ridícula engenhoca político-administrativa manufaturada por estadistas ávidos de poder e intelectuais em busca de um amo, isto é, de mecenas, isto é, de tetas prebendeiras a sugar -, é um perigoso mas efetivo álibi para as guerras que dizimaram o planeta não sei quantas vezes, para as pulsões despóticas que consagraram o domínio do forte sobre o fraco, e uma cortina de fumaça igualitarista cujas nuvens deletérias indiferenciam os seres humanos e os clonam, impondo-lhes, como essencial e irremediável, o mais acidental dos denominadores comuns: o lugar do nascimento.”