notas metafísicas

E, de início, Deus se fez voz e a voz separou-se do silêncio e gerou o intervalo, a interrupção no contínuo. Deus é continuum. De quê? De si mesmo. E a Vida é Nele. A Vida é a descontinuidade de Deus em si mesmo. Deus criou a Vida para ver-se. E do seio da Vida inesperadamente nasceu a Consciência, para surpresa de Deus e da Vida. A consciência que deduz Deus a partir da Vida. Nós somos a Consciência.

E quando digo nós quero dizer “A Vida”. A vida em mim. Mas quero dizer também “A Consciência”. Porque em toda a Vida, só eu penso a Vida e nela encontro Deus.

E encontro logo. De cara, sem pensar muito. Para a Consciência, a dedução de Deus a partir da Vida é algo natural. Não há nisso nenhum mistério. É próprio dela. O que aturde é que vem a seguir.

A Consciência percebe que para ela existir, durar, é preciso que haja como fundo o infinito, que o finito só pode ser no infinito. (Eu sei que isto não está claro, tentarei tornar isso mais claro depois.

A Vida é como um ser que extrapola, ultrapassa, transcende a vida em mim. A Vida é, obviamente, maior do que eu e aponta para algo ainda maior, que é Deus. O absurdo é que eu, esta insignificância, me dê conta disso. E por que a Vida em mim acaba por se manisfestar como Consciência que parece querer negar a Vida e retrnar a Deus, se a Vida é Deus?

(A Consciência é a filha inesperada de Deus com a Vida. Uma filha, me ocorre agora pensar gregamente, incestuosa, prole do pai com sua filha. O um se faz dois e esses dois fazem um terceiro. A equação, se transposta para o âmbito digamos “familiar”, antropomórfico, se figuraria assim, incestuosa. Dizer que “a consciência é a filha inesperada da relação entre o pai e sua filha” é inventar uma tragédia metafisica onde o que ha é uma equação. Uma equação impensável em seu signficado. E para figurar o impensável, lançamos mão do tabu – será isso?)

Eu me percebo como parte ínfima da Vida. E essa percepção da Vida inclui Deus como o Ser da Vida, digamos assim. E assim também percebo a mim mesmo como Consciência.

E o extase só é cortado quando percebo por outro lado a precariedade de tudo.

Pois, que haja um eu que pensa a Vida e que ele a pense a despeito da Vida, como uma vontade autônoma, mas precária, até aí dura o êxtase. Posso mesmo dizer “Sou Deus” porque eu vivo e a Vida é Deus. Mas então me dou conta de que sou um “deus precário”, um “quase-nada”, finito e breve, e que essa consciência não me comunica nenhum sentido imediato.

A primeira qualidade que a Consciência descobre compartindo com o Deus que percebe por dedução da Vida não é a inteligência, mas a solidão. A solidão não por ser finito, porque tudo mais também é, mas a solidão de quem se percebe como o único ser que na Vida é capaz de pensá-la e a Deus. E ainda mais solitariamente porque os penso “em mim”, na minha precariedade de ser finito e breve. E sem que isso me traga nenhum sentido, nenhum significado que possa ser comunicado. É mais uma perplexidade que induz ao silêncio. A solidão do silêncio em um corpo que perece aos poucos.

* * *

Um texto complicado e aparentemente inútil. Melhorei o quanto pude o texto, colocando ao menos os acentos, corrigindo a ortografia e dando mais clareza às frases.

Quanto à utilidade, argumento da necessidade de uma metafísica que ofereça fundamento a todo o pensamento.
E o que tenho vislumbrado a partir das minhas reflexões que ainda mal consigo colocar em palavras? Um universo inteiramente livre, que se ordena nao segundo a necessidade, mas segundo “economias contingentes”, pautado apenas num único impulso: durar.

Consigo vislumbrar isso tanto quando medito como quando me ponho a observar o mundo ao redor.
Minha angústia é colocar isso em palavras de um modo explicito e organizado. Tudo mais tem me parecido menor, ainda q essa idéia geral impregne tudo que escrevo.