“Penso logo existo”

“Penso logo sou” – o que Descartes faz é estabelecer uma relação entre ser e durar. Uma relação mais ou menos óbvia – ou materialmente evidente – mas como tal perdida entre outras tantas evidências que se abrem a um observador atento. Porém, extraída de uma meditação radicalmente introspectiva porque se constrói a partir da negação da verdade de todas as idéias que lhe lhe vêm à mente – das ideias sobre a existencia e aparencia de objetos aos conceitos puros da matemática, passando pela memória e a imaginação – essa relação entre ser e durar torna-se o marco reinaugural da filosofia que, a partir daí, em sintonia com o “espirito do seu tempo”, se reconstrói em torno do individuo – ou da percepção inegável da radical singularidade de tudo e cada coisa, quer falemos do ser, quer falemos do instante.

A meditação como proposta por Descartes torna-se um verdadeiro “exercício metafísico” no melhor estilo “faça você mesmo”, dispensando a mediação acadêmica do especialista. Esse “reformismo” filosófico não parece ter escapado aos teólogos da Sorbonne, que se recusaram a sancionar o texto.

No entanto, o Deus que emerge das Meditações é católico e não protestante, afinado com Santo Agostinho do que com Lutero ou Calvino. A mesma plasticidade que existe na Fisica cartesiana dá a forma desse Deus, onde a compaixão é um valor estético* (veja comentário abaixo). Um Deus imanentíssimo, onde liberdade e ordem convivem sem conflito e que faz do Mundo, da Vida seu espelho e do Homem, da Consciência seu confidente.