O fundamento da barbárie

lendo a entrevista de uma ativista iraniana na Veja (clique aqui para ler), destaquei este trecho que ilustra o quanto esses países estão distantes da democracia, de uma sociedade baseada no direito individual, na liberdade.

Que crime essas crianças e adolescentes cometeram?
Alguns são acusados de assassinato, outros de envolvimento com drogas. Mas os julgamentos muitas vezes se baseiam no testemunho de uma única pessoa, ou num comportamento que o estado considera criminoso, como o sexo entre dois homens ou duas mulheres. Estou em contato com a família de dois adolescentes presos porque um deles gravou no seu celular cenas de sexo que teve com o outro e as imagens caíram nas mãos da polícia. Foram condenados à morte por apedrejamento. Como acontece muitas vezes, os familiares não querem ajuda.

Por vergonha?
Para não terem sua reputação comprometida. Eles preferem que os jovens fiquem presos.

Preferem inclusive que sejam apedrejados?
Eles não querem que o caso venha a público. O pai de um desses jovens me disse: “Deixe a nossa família em paz”. Para os homens, principalmente, trata-se de uma desonra muito grande. Agora, estou tentando entrar em contato com as mães desses rapazes.

O que para nós passaria por um incidente familiar, privado – pais descobrindo a homossexualidade dos filhos – lá torna-se um crime de morte. E o pior: sancionado pela própria família.

(Uma digressão: é interessante esse cruzamento entre alta tecnologia – um filme gravado num celular – e pensamento primitivo – para dizer o mínimo. )

Esse peso do clã somado a uma lei imutável que abarca tudo, regulando cada item da existência do sujeito é de um estonteante horror. O sujeito vive soterrado pelo passado familiar e religioso. Não há presente, não há memória pessoal. O espaço privado é mínimo. todos podem interferir na vida de todos.

Cria-se um misto de indiferença e desprezo pela individualidade, pela ambiguidade, pela especulação, pela criação, por qualquer  expressão singular, pessoal – em uma palavra: nova. Uma sociedade assim é essencialmente tensa.

Essa tensão tem de passar sem deixar registro. Se qualquer desvio é crime ou desonra, o submundo deve ser vasto. E violento.