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Quisera fosse noite assim por muitos dias, lenta e silenciosa noite que se enrodilhasse sobre si mesma, igual, sem que me assolasse a fome, a sede, a ânsia ou a angústia de mais uma manhã por vir, luminosa e cheia de afazeres. Quisera me noite com a noite assim por muito, muito tempo, como se nos confins do mundo reinasse só, sobre mim mesmo, sem fome, sem sede, sem desejo, num longo inverno sem luz e sem frio. Porque já quase nada o que lá fora agora dorme – embalado em sonhos que são como compensações e ensaios, frutos da frustração e da vingança que jamais se cumprirão de todo para que não se extinga a Roda de triturar almas e corpos indistintos – o que lá fora dorme a mim já nada tem a oferecer que não magoe ou em retorno me peça alguma coisa que já não quero dar: comércio extinto, porto devastado, mar revolto e turvo. Mas em mim, essa estranha e tensa calma – que fabrica versos que pouco sabem dizer da noite que me vai por dentro e quisera durasse por muito dias, até que lá do fundo me brotasse a poderosa Voz que de novo convocasse: “Faça-se a Luz!”. Pois alguma verdade há nessa obscura vontade de escuridão e silêncio, alguma verdade morta ou moribunda, aguarda, precariamente despida de esperança, que…

(Voz, Luz, Deus são palavras tão sonoras que repousam remotas no silêncio)