ler

Ler é ler o movimento. Dito de outro modo: o que se lê é o movimento. É claro,  é óbvio, é algo que se pode dizer autoevidente. Mas eu nunca tinha pensado “isso” com essas palavras.

Sempre me impressionou que, no imenso séquito que acompanhava Alexandre em sua marcha “sempre em frente” (“Tout droit, monsieur! Tout droit!”) para conquistar o mundo, seguiam leitores de tudo: de nuvens, de pedras, de sonhos, de águas, de vísceras, e talvez de toda sorte objetos criados como ferramentas ou instrumentos de leitura do que “esta aí”, o mundo, recoberto de camadas e camadas de mais significado.

Ler o livro de Plutarco foi uma das epifanias que mudaram a minha vida. Outra, anterior a Plutarco, foi  ter “lido” a noite com o auxílio de um mapa estelar, ter olhado para cima e visto aquilo tudo subitamente ordenado em constelações  lindamente desenhadas pelo olhar de gerações incontáveis fazendo o mesmo gesto de curvar a cabeça para cima e olhar a noite –  os trabalhadores noturnos.

Eu podia ver, literalmente, o Caos e o Cosmos, sobrepostos. Sem deixar de ser um só, o Céu era dois, era os Céus. Há nisso, nessa natural constatação toda uma metafísica que pode perturbar uma alma por toda a vida.