mitômano

“Mitômano”, ouvi alguém dizer de outro quando eu passava. Conheço o sentido da palavra, mas havia desprezo na voz e talvez por isso – porque me identifico com os desprezados, não sei se por piedade ou culpa – me tomei de simpatia pela palavra. Soa tão bem – “mitômano” – que para me certificar dos seus significados consultei o dicionário.

“1. Tendência a narrar extraordinárias aventuras imaginárias como sendo verdadeiras. 2. Hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente.”

Serei mitômano? Não tenho o hábito de mentir, nem conto como verdadeiras histórias imaginárias. Porque os fatos guardam sempre algo de extraordinário, basta prestar atenção. E quando conto, procuro usar com parcimônia os adjetivos e evito generalizações – essa outra forma de julgamento, mais pérfida, porque toma a repetição por evidência e se pretende imparcial e exata por isso. Também evito julgamentos que nada mais são que acusações.

É a beleza que procuro sempre. E acredito em tudo que me contam. Porque sei que há verdade em tudo. Enfim, não me preocupa se é real ou imaginária a aventura, me agarro ao que ela tem de extraordinária. Já ouvi de alguém que se dizia Jesus me narrar como, em companhia de Jane e Tarzan, transformou vinho barato em champanhe para comemorar o aniversário de Madame Satã. E já ouvi tantas histórias tristes também, tão tristes que eu no íntimo queria que fossem imaginárias. “Tente ver com outros olhos” é o que eu às vezes repito nessas horas, se o silêncio nos pesa demais.

E quem escreve “extraordinárias aventuras imaginárias como sendo verdadeiras” é mitômano? Escrever de algum modo nos redime ou nos cura? A mim, certamente. E não do mal de ser mitômano – escrevo crônicas e pequenos poemas e não romances, contos ou roteiros (ao menos não ainda!) – mas do mal de não saber viver com a necessária destreza – ou o necessário desprezo. E nem é que escrever me cure ou redima, mas me ameniza e consola. É minha maneira de estar comigo, é minha maneira de gostar de mim.