esboço de metafísica

A Vida porque é finita se regula por um princípio simples: durar. Isso se dá por meio de dois impulsos: sobreviver e reproduzir. No mundo, esses são os objetivos de todo vivente: sobreviver e reproduzir.

A Vida quer durar porque é finita. (É fácil entender que o Infinito não tem essa preocupação: não lhe ocorre a possibilidade de cessar. Por essa via também não é difícil chegar à conclusão de que só pode haver um Infinito).

Entâo, no limite do pensamento, está o Infinito. Um limite intransponível: temos a idéia, mas não é possível pensá-la ou concebê-la. Há um impedimento lógico. Ao Infinito não chegamos com palavras. Talvez a Matemática, talvez a Música. Talvez a telepatia ou alguma forma de comunicação mental ou espiritual. Mas o conhecimento ou a investigação do Infinito é inacessível às palavras. Pois como poderia algo simultâneo ser descrito em sua simultaneidade por palavras sucessivas, isto é, submetidas ao tempo que corre inapelavelmente do passado para o futuro?

(O Infinito, por definição, é inteiro dado, simultâneo. O Infinito apenas é, de um modo inconcebível para um pensamento que é sucessivo, finito.  O Infinito é literalmente indizivel e até por isso torna-se mais “materializável” como entidade matemática)

No outro extremo, ou fechando o círculo, se preferirem, há a idéia de Nada. Nada, Fim, Zero, Não-Ser. Trevas. Jogando com as idéias, podemos dizer que, se o Infinito nos ofusca com sua Luz, o Nada nos traga em suas Trevas.

O Nada, no entanto, nos é facilmente concebível como escuridão e silêncio, uma idéia até “materializável” pelo exercício da meditação. Descrita por Kant como “duração vazia de conteúdo”, nomeada a partir de Descartes de “Cogito”, essa idéia literalmente Nada nos informa (e, portanto, cumpre integralmente a tarefa de informar sobre aquilo que representa!), mas como Descartes demonstra, sobre ela se alicerça o argumento, a lógica que sustenta a relação de verdade entre a Consciência e a Vida.

Surpreendentemente, porque aparentemente paradoxal, será ao construir a ideia de zero que eu comcluirei que eu sou um. Ou, dito de outro modo, do Zero extraio a idéia de Um.  Zero, Um e Infinito: com essas três idéias contruo a matemática, a lógica, estruturo o pensamento. Todos, Um, Nenhum.

Extraio também uma descrição da relação entre ser e não-ser: o Não-Ser não é, como diria Parmênides. Não há fatos negativos, como diria Wittgenstein. Não há vazio, como diria Descartes. Eu experimento (pela meditação) que o Nada é de fato algo que equivale a uma “duração vazia de conteúdo”. Logo, se o Nada, o Não-Ser pode ser representado, ele é. Nesse caso, o Nada de fato não existe e, por isso, podemos afirmar, o Não-Ser não é. Então o que há é uma contínua emergência, duração e dissolução das Coisas no Mundo. O passo seguinte será tentar mostrar a equivalência entre o Nada e o Infinito, que esse mútuo engendramento incessante entre Zero e Um é feito à imagem e semelhança do Infinito.