sozinho

Sozinho deve ser diminutivo de só. Deve ser o sujeito estar tão só, mas tão só, que se sente sozinho, sozinho… Tão, tão só que nem dá pra se ver. Como a montanha que beira a estrada, que é só uma parede de pedra até que se possa vê-la de longe, como algo que passou. “Aquela montanha teve o seu momento de parede de pedra” – é uma frase estranha que poderia espocar na cabeça de qualquer um quando de longe contempla a montanha. Ou da montanha se contempla a cidade: a cidade, a cidade, a perder de vista como um imenso mapa vivo. A cidade, sempre tão comovente.

Há quem, entre os homens, não goste dos homens. O que só soa paradoxal para quem a Humanidade existe, para quem acredita que todos os homens são homens. Não tenho dúvida que essa magnífica e inesperada idéia (o Homem) resulta da  fusão do grego e do judaico que é o cristianismo – e é preciso ler os Evangelhos para saber isso, mas – esconjuro, deus me livre, eu sou ateu! – ou para entender ao menos pq Nietzsche chamava o cristianismo de platonismo para as massas.

Não tenho dúvida que foi desses dois povos tão ínfimos e precários que brotou essa idéia um tanto rara de, ao mesmo tempo, Eu e Humanidade. (Eu e Humanidade estão intimamente subordinados: um só existe se o outro existe). Uma idéia que é uma anomalia numa antiguidade subordinada à tirania do mais forte – é só olhar o que há ao redor desses dois povos no mapa da história. Por mais que tenha havido grandes civilizações no passado, nenhuma logrou um sentido de Humanidade.

Gregos e Judeus são anomalias, mutações – se quisermos brincar com palavras correntes. O momento crucial em que a gente percebe isso no caso dos gregos é em Maratona, quando um punhado de atenienses massacra o exército imperial persa, criando a mística do Homem Livre – que até hoje perdura.

Os romanos completam a tríade fundadora da cultura ocidental que irá unificar o mundo numa sociedade planetária.

Se a gente pudesse fazer uma animação desse fluxo, acho que pareceria um furacão ou um ciclone brotando dos fundos da Ásia, isso que hoje conhecemos como Europa, que era então o fim do mundo povoado por bandos de guerreiros sem civilização ou cultura em face da riqueza do Oriente de persas, indianos, chineses e mesmo egipcios. Essa gente, em pouco mais de 2.500 anos e contra todos os presságios, unificou o mundo, que se encontrava “espalhado” por mares nunca dantes navegados. Se pensarmos que só há pouco mais de 500 anos essa unificação começou a se dar, voltamos a pensar num furacão.

E quem, em um dado momento, quando tudo parecia prestes a se acabar, com o islã tomando toda a África e já subindo em pinça pelos Balcãs e pela Peninsula Ibérica, quem salvará a Cristandade e essa idéia tão nobre de Homem Livre? Esses bárbaros europeus cristianizados pelo Império Romano.

Por isso é preciso já não possuir nenhum vigor intelectual para não se sensibilizar pelo anarquismo místico dos Evangelhos, a radical e assustadora liberdade de Cristo, seu ousado despojamento (que se cerca de  leprosos, pescadores, prostitutas, centuriões, coletores e  despreza os “suspeitos de sempre”: sacerdotes, políticos e intelectuais), com a tensão narrativa que faz de Marcos um thriller em flashback.  Cristo é tão radical em seu amor amoralista e incondicional que assusta.