vaidade não põe ninguém no céu

“Vaidade não põe ninguém no céu”, concluía ainda ontem a velhinha devota de São Jorge, depois de advertir: “Na hora que você quiser uma coisa, se ajoellhe e peça a ele. Peça, mas não peça com vaidade, não…” Agora há pouco, lendo a introdução escrita por Adam Mickiewicz à edição brasileira de A Sabedoria Divina, de Jacob Boehme, dei de cara com a seguinte frase atribuída a São Paulo (Romanos, 8:22, 23): “Toda criatura sofre e aspira ser libertada da vaidade“.

Achei a coincidência estimulante e fui conferir na versão que tenho do Novo Testamento, chamada “Bíblia do Peregrino”, e lá está escrito: (8:22) “Sabemos que até agora a humanidade inteira geme com dores de parto. (8:23) E não somente ela; também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos por dentro aguardando a condição filial, o resgate do nosso corpo“.

Essa versão do Novo Testamento se pretende mais literal. No site Bíblia Católica, encontrei, entre outras, a versão da “Bíblia Sagrada”: “Sabemos que toda a Criação tem gemido e sofrido dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adopção, a libertação do nosso corpo.”

A diferença é muito grande. Seria melhor que, na introdução, o autor tivesse dito: “Como sugere Paulo, em Romanos, 8:22,23, “Toda criatura sofre e aspira ser libertada da vaidade”.”

Seja como for, achei interessante a relação que se estabeleceu entre “libertação da vaidade” e “resgate ou libertação do corpo”. Ainda que vaidade aqui – tanto na fala da velhinha quanto em Boehme – não se reduza ao aspecto “cosmético” de preocupação obsessiva com a aparência, mas à soberba (“Não me ajoelho. Não peço.”) – ainda assim, é bom não perder de vista essa relação entre a vaidade do corpo e o resgate do corpo.  Porque o “resgate do corpo” consegue exatamente aquilo que a vaidade busca inutilmente: vencer o Tempo.

Talvez a grande novidade cristã, a boa nova, seja a promessa de uma imortalidade que alcança também o corpo: o resgate de que se fala aqui é o resgate do fluxo do tempo de um corpo que se preservará em seu vigor sensível

Eu acredito que isso deva ser entendido exatamente assim,  no sentido amplo da preservação da sensibilidade material – da sensualidade, se vocês preferirem – no plano do espírito.

Não é pouca coisa. No filme de Win Wenders, Asas do Desejo, o plano dos anjos é em preto e branco; só quando eles encarnam é que o filme se torna colorido.  Em Descartes, o plano puramente mental ou espiritual é destituído de cor.

Por outro lado,  Newton definia o Tempo e o Espaço absolutos como “Sensorium Dei”, como “órgãos sensíveis de Deus” ou aquilo que corresponderia ao corpo, à sensibilidade de Deus.

Nesse caso, o resgate do corpo significaria então algo como ter um “espírito sensível”, como Deus, em Newton? Não sei, mas vejam onde fui parar por causa de uma coincidência… A hipótese é iluminadora! Pois, se trataria então de espiritualizar o corpo. Como? Não sei – de novo. Mas certamente indo numa direção distinta da “medicalização do corpo” – que é o que vivemos, às voltas o tempo todo com planos de saúde, especialistas, exames, remédios,  tratamentos. Li uma vez por alto, mas gostei da idéia, de que temos vários corpos, se não me engano, três: o corpo espiritual, o astral e o físico. Uma doença começa nos planos invisíveis e só, por último, alcança o corpo. É certamente uma abordagem muito mais espiritual.

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Sobre Espaço e Tempo como Sensorium Dei em Newton há muita coisa no Google. Eu baixei este texto, mas apenas comecei a ler.

Sobre a novidade do sensualismo cristão, reproduzo  abaixo um trecho de “Em 6 Passos o que faria Jesus”, de Paulo Brabo. Recomendo os dois livros dele. Eles me abriram uma perspectiva nova de Jesus: percebi que estava aprisionado por uma visão de Cristo que era ignorante (pois de fato, apesar da formação católica, jamais lera os Evangelhos) e preconceituosa (porque baseada apenas no que me diziam e não no que experimentara).  O Jesus dos Evangelhos que Brabo me ajudou a descobrir é surpreendente e radical, apaixonado e apaixonante.

“O impensável, para gregos e romanos, estava no fato do corpo de Deus ter sido redimido: o fato de Jesus ter adentrado a glória em forma corpórea, prometendo o mesmo destino aos seus seguidores.

Na visão de mundo greco-romana o espírito era uma chama imortal desgraçadamente presa dentro de um vaso mortal. Para os gregos, o espírito era puro e inefável, o corpo impuro e irredimível; o espírito era bem-intencionado e puxava o homem para o alto, o corpo era corrupto e puxava o homem para baixo; o espírito era por definição indestrutível, e o destino mais honroso a que a carne podia aspirar era a dissolução.

Imbuídos dessa convicção, os atenienses ouviram muito interessados o discurso do Apóstolo no Areópago, até que Paulo mencionou a ressurreição do corpo – ponto em que perceberam que a doutrina daquele sujeito não merecia mais do que zombaria e desprezo. Aqueles esclarecidos atenienses, mais ou menos como nós, não criam que houvesse no corpo e na carne qualquer coisa com vocação à redenção ou à eternidade.

Já para os judeus, que viam a carne como obra de Deus e criam na redenção futura do corpo e da criação, o escândalo estava em ver Deus confinado aos limites da sua própria obra – como um dramaturgo que condescende em descer ao palco, um pintor que rebaixa-se voluntariamente a pincelada. O que era ainda pior: esse homem que sugeria ser a encarnação de Deus repudiava o ascetismo (popularmente associado à espiritualidade) e abraçava o mundo dos sentidos com exuberância, com paixão, com vertiginoso ardor.”