A Árvore da Vida

Primeras notas apressadas sobre o filme. Publico porque podem acabar sendo as únicas.

Há uma aparente influência de Glauber Rocha nos planos sempre muito fechados, nos cortes seguidos dentro da mesma cena ou do mesmo plano, na câmera nervosa, sempre em movimento, na montagem elíptica, anacrônica, que salta com elegância entre o factual, o onírico, o memorial, entre a subjetividade dos narradores e o que poderia ser chamado de sua “subjetividade objetiva profunda”. E aqui Malick  se distancia de Glauber que, aprisionado na retórica materialista revolucionária, não podia ou não queria fazer essa passagem em direção à Deus, à metafísica.  (A relação com Glauber, portanto, seria muito mais estética e plástica, fílmica, ou mesmo pessoal, no sentido de ambos partilhares uma “angústia metafísica” que, no entanto, toma rumos diferentes)

Porque isso que chamo de “subjetividade objetiva profunda” é “Deus em mim” ou a memória da Totalidade que faz com que o ato de ser concebido se confunda com o parto de estrelas ou do próprio universo. É a percepção profunda da relação de semelhança entre o macro e o microcosmo que resulta dessa busca e da aceitação desse Deus inalcançável pela palavra ou pela lógica e só acessível pela fé. A fé de Jó.

O filme é profundamente cristão. Eu arriscaria dizer (arriscaria no sentido de que a afirmação carece de um fundamento real além da simples intuição) que um cristianismo muito anglo-saxão, unitarista (ou antitrinitarista) que dialoga o tempo todo com o Pai sem fazer nenhuma menção direta ao Filho. Dialoga, não exatamente – que busca um diálogo, a redenção pela fé em face do sofrimento injustificado, da dor mais terrível que um humano pode encarar que é a dor de enterrar um filho, especialmente um filho jovem que ainda sequer gerou uma descendência.

(Talvez se possa buscar a origem dessa visão aparentemente mais unitarista de Malick em sua origem cristã maronita. Eis aí uma pesquisa a ser fazer…)

Acho que Árvore da Vida só será plenamente entendido por quem tenha visto os dois filmes anteriores de Malick: Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo. Os três formam uma trilogia metafísica, uma trilogia talvez não intencional, o que de modo algum impede que um filme ilumine o outro.

Logo no início de a Árvore da Vida, a Mãe conta que as freiras lhe ensinaram que há duas vias na Vida: a via da Natureza e a via da Graça. Se entendi completamente a explicação que ela dá, a via da Natureza é a via do Poder e a via da Graça, a via do Amor. Numa segunda redução, acho que podemos dizer: Thanatos e Eros.

Não é absurdo afirmar que o tema de Além da Linha Vermelha é Thanatos, esse impulso destruidor que busca o poder a qualquer preço. E que o tema de O Novo Mundo é Eros. Claro, nos dois filmes – como na Vida – os dois elementos estão presentes o tempo todo, porque eles estão no fundamento da vida, são os impulsos que empurram a vida para frente: o Egoísmo (sobreviver) e o Desejo (reproduzir). E aqui começa a MINHA metafísica ainda muito mal esboçada, mas cada vez mais clara para mim, onde esses impulsos não se opõem, mas se combinam.

Em A Árvore da Vida já não é um ou outro elemento que “centraliza” a narrativa, mas a própria Vida. O,u ainda melhor, a Consciência humana que, dialoga com a Vida dentro dela mesma, que dialoga com sua própria vida singular e finita, e busca entender para ceitar seu “mecanismo” – o que siginifica entender e buscar seu Criador.

Acredito que sem esse entendimento da obra de Malick, o filme pode mesmo em alguns momentos parecer um tanto longo ou – para quem se acostumou à narrativa fácil do realismo vulgar – sem pé nem cabeça.Mas, visto como a parte final (será?) de uma trilogia metafísica, ele justifica plenamente a afirmação de que Malick é o maior cineasta vivo em atividade. Um bálsamo contra o niilismo autocomplacente de Lars Von Trier (um excelente cienasta, ressalto) e a mera diversão (que eu adoro).

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Outro aspecto importante: o filme deve ser profundamente autobiográfico. Malick de fato nasceu em Waco, Texas, e a música deve ter sido mesmo uma presença muito forte em sua infância. Todos os seus filmes são construídos como sinfonias. A referência para seu estilo de filmar, dirigir, enquadrar, montar deve ser procurada muito mais na música do que no próprio cinema. Mais do que em qualquer outro filme dele, em A Árvore da Vida, isso é evidente.

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Outra observação que deveria estar lá em cima, mas só lembrei dela agora: a emoção que m

Malick quer nos passar não é a emoção mais comum e superficial transmitida pelas palavras e pelo cinema literário, mas a emoção que a música produz. mais uma vez, reitero: é preciso perceber – e se deixar impregnar – pelo sentido musical dos filmes de Malick, especialmente este, onde quase não há palavras.

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O que entendo por estrutura sinfônica? Do pouco que sei de música, guardo a idéia de que a sinfonia se constitui de parte mais ou menos independentes em que os mesmos temas, geralmente dois, são apresnetados em andamentos diferentes, com se fossem modos diferentes de dizer a mesma coisa.

Se a gente olhar com atenção, A Árvore da vida parece mesmo divido em partes bem nítidas – exposição, desenvolvimento, desfecho – mais ou menos independentes e com andamentos distintos e todas girando em torno do mesmo tema: a impossibilidade de se separar eros e thanatos, morte e vida, alegria e sofrimento.

É incrível também como a emoçao não é, com ojá disse na nota anterior, produzida por palavras mas pelo movimento da câmera e o ritmo dos cortes.  Quase não há “interpretação” dos atores, seja gestual ou retórica. No entanto, o resultado, é de uma intensidade devastadora.

(Malick está para Beethoven – talvez ele preferisse Brahms – como Fellini está para Mozart)

Seira muito interessante que um músico, uma mestro, levasse essa analogia com a sinfonia mais adiante.