Fabulação e infelicidade

O devaneio, conclui uma pesquisa inglesa, é sinal de infelicidade.

Ausentar-se do presente, deixar-se vagar por hipóteses de passado e/ou de futuro, entre dois “se…”, o “se” sobre futuro que projeta vinganças e se nutre do ressentimento que o outro, o “se” que salta sobre o passado, produz… Sim, esse despregar-se do presente com o coração cheio de ira é um evidente sinal de infelicidade.

No entanto, é o que fazemos todo o tempo, com máxima ou nenhuma dramaticidade, sob a forma de fabulação ou sob a forma de cálculo.

Enquanto andamos pelo Centro numa tarde qualquer da semana

– o cérebro recalculando incessantemente  a trajetória para não esbarrar em ninguém e cumprir com máxima eficiência a tarefa de chegar em algum lugar  –

sem esbarrar em ninguém, maquinamos, tramamos, tecemos nossos dramas pessoais, sumamente subjetivos e ínfimos, sem aparente importância no cômputo cósmico da Existência: “Não sou nada, nunca serei nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do Mundo”.

(Não fosse o verso que omiti – aquele que abre um abismo que resume e explica o poema todo – esses versos poderiam ser ditos até com alegria, mas são, enfim,  mera constatação matemática.)

A diferença entre fabulação e cáculo está em que a fabulação envolve narrativas, narrativas imaginárias, enquanto o cálculo está arraigado na realidade.  É como se houvesse duas memórias: a acionada pela fabulação,  uma que cria passados que não existiram e futuros que não existem, e a outra, acionada pelo cálculo, que intensifica a experiência do presente.

Hipótese mais atraente, pensa que há uma única memória que pode ser operada nesses dois modos principais, como se fabulação e cálculo fossem programas que fazem operar o hardware que é a memória.

(É interessante que ao modo da fabulação podemos associar a imaginação e ao modo do cálculo do cálculo o entendimento. Memória e imaginação, nesse caso seriam o mesmo, reduzindo para três as quatro faculdades assoiciadas ao pensamento: sensibilidade, memória/ imaginação, entendimento.)

Seja como for, é nesse sentido que todas as tradições meditativas insistem na concentração da mente – que então será a fusão dessas duas memórias ou desses dois modos, somando à precisão do cálculo a intensidade da fabulação na percepção do presente, do imediato do Mundo, da Vida em sua prodigiosa minúcia.

Essa atenção focada nas sensações do corpo vai se tornando – paradoxalmente? – cada vez mais abrangente: como os sentidos são o Corpo conectado ao Mundo, quanto mais sinto, o que sinto é o Mundo. E quanto mais o sinto, mais o abarco e ele torna-se imenso.