as rugas

As rugas, a inconsistência da face derretendo feito cera, eu-pedaço de cera que contém em si todas as formas possíveis, número incalculável e indefinido que o passar do tempo vai esgotando até alcançar esse estado de pureza e unidade que é a morte: já nada mais é possível, eu sou o que sou, perfeito acabamento de flor, fim.

E no entanto, ainda… a vida, eu-este corpo, uma história anônima, ínfima, desimportante, esse arrastar-se sem nunca saber bem para onde, de certo só as contas no fim do mês e a morte no fim de tudo. Fazer com que haja dinheiro até o fim, nisso se resume a meta, o sentido, o destino: não sofrer a humilhação da miséria na velhice.

“Passou tão depressa…” seria um bom epitáfio, uma nota de humor entre o mármore lúgubre do cemitério.

E, no entanto, ainda… eu tenho esperança. Não sei exatamente o que espero, mas poderia resumir tudo em uma palavra que não direi porque soaria inconsistente com este rosto de cera e a história que fiz da minha vida. E, no entanto, visto daqui, do pedestal da palavra que não direi, há uma minuciosa coerência nessa aparente ou tão clara coleção de equívocos.