a obstinação das flores

Me encanta a delicada obstinação das flores em durar…

Falo dessas flores que no vaso me fazem companhia. Elas estão fora de seu meio, longe da terra, desenraizadas, apenas a ponta do caule  imerso num fio de água que as sustenta.  E, no entanto, resistem, exuberantes, delicadas, silenciosas.

Somos, eu e as flores, as únicas formas de vida à vista ao redor. Tudo mais são inanimados símbolos esculpidos na matéria bruta.

Há também a chuva lá fora e as fragatas, mais raras a esta hora, cortando o céu baixo e cinza. O sax de alguém que se chama Scott Burns se encaixa no silêncio, amalgamando-se  sem feri-lo – como as flores no espaço ou como isso que em mim às vezes parece ser uma alma:

discretas notas de Vida no vasto Mundo.

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Mas ainda é o piano quem melhor combina com essa chuva… Não sei se pelo gotejar que vai extraindo notas inesperadas das coisas e contrasta com a discreta efervecência da chuva incessante ao fundo – como se fosse um baterista roçando delicadamente aquela vassourinha no prato, meu amigo Richard Preusser brincando com seu amigo Michel Petrucciani ao piano  In a Sentimental Mood em algum lugar no tempo ou em outro mundo… 

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(É novo, é surpreendente, me dar conta que  eu já tenho os meus mortos. Não esses das estantes em livros e cds, mas os meus, gente que perdura em mim e de quem lembro como se morassem agora em um lugar mais distante e de acesso difícil)

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 Também me surpreende olhar para essas gérberas e me ver um pouco gérbero. Como disse, somos formas de vida. Mas distintissímas: eu todo carne, elas tão… vegetais – na falta de uma palavra melhor que lhes distinguisse a textura tão diferente, a forma, a maneira mesma de ser. Nada mais distinto um do outro, enfim, do que eu e essas gérberas – e no entanto, somos igualmente Vida.

(Enfim, eu reconheço nelas o mesmo princípio, ou melhor, o mesmo conjunto de princípios simples que animam meu corpo. Há inclusive na medicina todo um “universo” nomeado de vegetativo certamente por analogia  a essa “camada” de Vida – talvez se possa chamar mesmo de camada, como algo equivalente às frequências de onda – da qual eu também participo. Eu tão gérbero…)

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Mas de todas as gérberas, a minha preferida – que não me leiam as outras! – é esta toda branca, branca – e só o centro negro.
É como se fosse ela a fonte original de onde emana o símbolo do Tao.

(Louco, não? O Tao ancorado aqui na discreta gérbera: é dela que ele emana e se atualiza) 

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Há também um lírio cor de laranja que pende agora magnífico do ramo que veio amarrado do lado de fora do buquê e sobreviveu incólume à viagem até aqui  e continuou florescendo, ele e mais outro, até culminar nesse lírio que pende magnífico ao pé de São Francisco…