de médicos e filhos

Eu me olho no espelho e penso “você vai morrer” e isso não é aterrador, mas espantoso.

Rugas finalmente se desenharam em minha testa, ainda discretas, mas bem visíveis quando ergo as sobrancelhas para denotar espanto ou em algum esforço de visão. Dois sulcos permanentes já há algum tempo descem da altura das narinas até os cantos da boca, ligeiramente inclinados, projetando um triângulo cuja base são os lábios e o topo aquele ponto entre as sobrancelhas associado ao terceiro olho. Os olhos – os visíveis – escondem-se por detrás de lentes cada vez mais grossas e os dentes se tornaram um monumento à odontologia. Não há dor ainda, não aquela dor que se presume nos verdadeiramente velhos, mas a decadência incessante logo se tornará vertiginosa – é o que todos parecem esperar.

Sim, porque tudo isso é estupidamente previsível e, no entanto, espantoso. É como se eu fosse obrigado a, mais do que aceitar, aprender a morte. Como se a saúde e a beleza depois de uma certa idade fossem um abuso, uma grosseria imperdoável – sobretudo com os jovens, aqueles destinados a ocupar o meu lugar. Todos esperam que envelheçamos: vizinhos, amigos, parentes olhamo-nos cotejando mazelas e, se alguém de algum modo parece melhor, isso nos entristece ou irrita. No passado, quando compartilhávamos a ilusão da juventude – que sempre nos parece eterna – a comparação se dava sobre uma base de rivalidade e ciúmes. Agora, não. Agora mesmo os elogios estão carregados de uma inveja avarenta, cheia de mau agouro. Exagero, claro, ou não haveria literatura. Ao menos, não a má literatura. Mas se esta faltasse, o que leriam os gênios, além dos escassos clássicos?

Por ora, talvez como compensação pela incapacidade de produzir literatura melhor, me esforço para manter a crença de que a juventude, sim, é eterna. A ilusão é a morte. A velhice e a morte.

Minha fórmula provisória para sustentar tal crença é me manter longe da procriação e da medicina. Pois, ninguém deseja mais a nossa morte do que filhos e médicos. E como sofrem por isso, especialmente os filhos. Tolice! Nada mais natural e óbvio. Sem a crença na morte, não haveria médicos e talvez nem filhos. Porque acreditamos na morte, criamos uns e outros. Então,se não cremos nela, certo é mantê-los longe. E, se ilusão não for, melhor ser dono da própria morte – e morrer sozinho.

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