a borboleta

Há umas árvores no caminho que faço quase todos os dias que dão uma florzinha amarela redonda que parece um pequeno e delicado pompom – não me ocorre outra analogia. Sempre me intriga que, a despeito dela não ter cheiro, parece ter uma espécie de umidade muito sutil que impressiona o olfato sem que isso configure um perfume. Vejam que embaraços semânticos essa florzinha me causa…

Às vezes pego uma e vou com ela cuidadosamente entre os dedos, investigando com o nariz sua estranha natureza: seus pelinhos me fazem cócegas, eu rio e assim brincando a florzinha me ajuda a me ancorar precariamente no presente das sensações imediatas, sutis e delicadas, me afastando daquela bruta fabulação que às vezes me sequestra o pensamento e arruína, senão o dia, ao menos uma parte dele.

Então lá ia eu brincando discretamente com a minha florzinha tão bobona quanto eu quando me lembrei que há tempos nesse mesmo trajeto encontrei uma pequena borboleta perdida na calçada. Tão delicada era ela que o passar feroz dos ônibus e dos carros a agitava toda, como se fosse voar ou ser arrastada como uma folha morta. Mas nem uma coisa nem outra: a valente borboletinha rubro-negra estava agarrada às pedrinhas portuguesas com perplexa bravura. Fiquei com pena dela e como não houvesse testemunhas me acocorei e lhe ofereci carona no meu dedo. Ela aceitou prontamente, ajeitou-se no meu dedo médio e lá fomos os dois pelas ruas.

Eu disfarcei a cena um tanto bizarra misturando à expressão mais neutra possível um certo ar de nobreza enfadada, próprio talvez de um Napoleão de hospício, o braço dobrado mantendo a mão próxima do queixo como alguém que conjectura os destinos da Europa do início do século 19 (porque a do início do 21 parece não ter jeito…).

Não lembro de ninguém ter se dado conta da minha singela fanfarronice, todos sempre tão metidos em si mesmos, mônadas solipsistas destilando fantasias e rancores. E ela colaborava, tranquila e discreta, as garrinhas de suas patas cravadas nos meus poros.

O que seria eu para ela? Um nada que se movia? Ou nem isso? O que lhe significava essa carona inesperada e inusitada? Nada, nada, nada… Para mim, havia o gozo estético de observar-lhe as cores e o desenho das asas. E havia, claro, a vaidade de me sentir tão singular, tão, tão qualquer coisa de diferente – uma maluco lúcido, um santo sem pureza, um idiota engraçado.

Sentimentos a que nenhum Napoleão pode dedicar mais do que alguns minutos de deleite… Lá pelas tantas comecei a me inquietar sobre que destino dar à borboleta. Logo, logo entraria em um território mais demarcado, onde eu tenho uma má reputação a zelar que não comporta borboletinhas pousadas no dedo. Ou, se comporta, má reputação não é coisa que se confirme.

Então quando chegamos a uma rua arborizada e um pouco mais tranquila, a borboletinha simplesmente voou – sem reflexões, sem despedidas e sem remorsos.

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