a paisagem moribunda

A cada vez que olho pela janela lembro que breve me roubarão essa paisagem e essa luz que agora me inunda a sala. Dói. É triste e dói saber não haverá mais céu, luz, ar – que perderei essa paisagem como quem perde um amigo de muitos anos, um parente, um grande amor que se pensava para sempre.

Já tinham me roubado a visão do Pão de Açúcar que eu orgulhosamente ostentava como a marca distintiva deste apartamento que sabia muito bem onde estava: no Rio de Janeiro, em algum lugar entre o Flamengo e a Glória. Agora, já faz tempo, quem quer que acorde aqui já não sabe onde está – a não ser que uma nem sempre justificável crença na própria sanidade lhe permita confiar na memória, essa forma mais precária, porque cheia de obrigações e compromissos, da imaginação. Afinal, a vista ao redor não se distingue daquela de outras tantas grandes cidades mundo afora: janelas e mais janelas – quartos, salas, banheiros, cozinhas – e paredes, imensas paredes lisas onde a umidade vai desenhando formas que aos poucos se tornam como que arremedos de nuvens, imensas nuvens negras onde se pode também intuir presságios.

Agora, bem rente às janelas laterais do apartamento – mais precisamente cinco: a da sala, a do banheiro, a da cozinha, a da área de serviços e a do quarto de empregada – se erguerá um prédio. Restará a luz que me vem das janelas de frente para a rua – a do jardim de inverno e a do quarto de dormir – o que não é pouco. Mas o apartamento perderá muito da sua graça.

Não me sentirei mais ao mesmo tempo isolado e partícipe do mundo, seguro aqui do alto, com minha visão ampla, mas quase indevassável, de tudo ao redor, podendo acompanhar o ir e vir das fragatas, dos biguás e das nuvens por toda a extensão do apartamento. Não é certamente muita coisa, mas era o suficiente para manter minha ilusão de uma discreta nobreza que parecia imune ao tempo – de mim para mim, suavemente, como que de pai para filho.

Sim, haverá alguns meses de muito barulho e poeira, entre outros transtornos, mas o pior virá depois, quando a torre se erguer definitiva. Outra vida então começará, mais triste, porque menos luminosa e mais abafada – igual a vida na maior parte dos quarto-e-sala que existem neste mundo.

Talvez me mude. Porque, para quem vier, não haverá diferença. Pelo contrário, achará uma imensa dádiva a luz e a paisagem que ainda restará. Mas, para mim, não. Literalmente posso dizer que nunca mais esse apartamento será o mesmo.

Escrever essas coisas vai me deixando um pouco mais triste, mas a possibilidade de que outros olhos venham a ler este texto me impõe a obrigação de ser irônico – que é a forma literária de parecer forte, mais forte que as vicissitudes da vida, acima delas… Então penso que talvez tenha chegado finalmente a hora de colocar quadros na parede e arrumar os armários. E fotografar minuciosamente essa paisagem – como quem guarda células-tronco – pois, quem sabe um dia será possível clonar paisagens a partir de fotografias?

Mas, não, não consigo olhar pela janela sem um sentimento de despedida. Imóvel sob o recorte da janela, a paisagem dói.

4 Comentários

  1. E, sabe, nem tanto a paisagem, mas a luz simplesmente. meu apartamento é muito luminoso exatamente por essa ausência de um prédio ao lado, uma dádiva, um privilégio. Mas vc tem razão quanto aos apegos. Na verdade, eu prefiro interpretar como um “convite à mudança”. Como eu disse, quem viesse a morar, se encntaria com o que ainda restará de luz e paisagem. E a mim, faria bem uma nova rua, um novo bairro, talvez. Eu, que sempre me quis um pouco nômade, já está mais do que na hora de exercer esse nomadismo…

  2. No inìcio. Apenas no inìcio vai sentis as saudades que jà està sentindo pela paisagem que nao vai ver. Mas, sabe? a gente se acostuma, pq nesse apartamento moram muito mais apegos do que uma paisagem na janela. 🙂

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