fábula

Quando o prato de porcelana chinesa parecia ter encontrado seu lugar definitivo, caiu e espatifou-se em centenas de cacos. Colá-los é tarefa delicada que há de consumir os dois bens mais preciosos de um homem: atenção e tempo. Irremediavelmente, faltarão pedaços, lacunas que ficarão como as interrogações que se acumulam quando se ouve uma história contada com relutância e uma ponta de vergonha.

No prato, há estampada a imagem do séquito de uma princesa que se prepara para atravessar a Grande Água. O coração acalenta a esperança de que, depois de se juntar todos os cacos – e a despeito de tudo que se terá perdido – miraculosamente a princesa e seu séquito aparecerão a salvo na outra margem. E então agradeceremos que o prato tenha se quebrado, agradeceremos o lento e extenuante trabalho de restaurá-lo e agradeceremos as falhas e ranhuras que ficaram como cicatrizes, marcas da imperfeição e do desastre, porque parecem desenhar o mapa que guiará a princesa no restante da viagem.

3 Comentários

  1. Eu entendi que as ranhuras ficam, mas, mesmo assim, a princesa continua a viagem. A queda do objeto é que tornou possível a ela continuar. Pois as cicatrizes fizeram um mapa…. Feito assim: pedaços colados não deixam ser ter um todo.

  2. Não sei se é sensível o suficiente a mistura dos tempos verbais de modo a reforçar a intenção onírica do texto. Ele começa no passado, vem para um presente onde o prato está quebrado, se remete a um futuro hipotético que se torna mais certo no momento seguinte e finaliza num presente onde o prato já está restaurado… Até por isso, não acho triste…

  3. Tan lindo. Tan triste. Tan oportuno.
    “e agradeceremos as falhas e ranhuras que ficaram como cicatrizes, marcas da imperfeição e do desastre, porque parecem desenhar o mapa que guiará a princesa no restante da viagem.”

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