veranico

Que dia lindo! O céu azul-azul, sem um traço de nuvem ou véu de névoa. Uma brisa terral sopra mansa e discreta, sinal de mais dias de sol e mar calmo. Em dias assim, até a tristeza se envergonha. E, para fulminar os corações, à noite, ergue-se no céu uma  esplêndida lua cheia.

Quem gosta mesmo de viajar – e sabe viajar – não vacilaria em comprar uma passagem – devem estar baratas: é baixa estação – e vir passar aqui estes dias de quase secreto veranico. Porque serão dias em que o Rio será secretamente ele mesmo, coisa que também acontece com as gentes, isso de se coincidir com o que se é, assim, quase em segredo, sem que ninguém perceba – a não ser os que por amor em nós procuram um certo brilho no olhar, um sorriso e sabem ouvir nossos silêncios ou os variados tons de nossa voz querida.

* * *

Mas como são inconstantes os ventos, ele agora sopra do sul, ainda cheio de sutilezas, manhoso, alternando mansidão e súbitas rajadas, como ensina a boa capoeira angola. Tão engraçado isso, essas mudanças repentinas e quase imperceptíveis, para quem, distraído, anda pela cidade  imerso numa vida tão mais imaterial e tão mais bruta. Horas marcadas, contas a vencer, fim de ano, começo de mês: tudo são números, abstratos números. O próprio dinheiro, dele quase não vemos mais a cor. E, no entanto, quanta insegurança nos causa. E o quanto nos afasta do mundo, do mundo real de ventos, nuvens, sol, lua, o mar e suas marés… Quase já não saímos de nós,  dentro de nós, ilhados.  Solução? Há – mas agora, em meio ao turbilhão, nos bastaria fechar os olhos e respirar bem fundo e devagar, sentindo na pele o calor do sol e a direção do vento, o aroma que no ar navega, os sons mais longínquos do mundo se fazendo… Só isso – por enquanto, ao menos – só um pouco…

* * *

E mais tarde, lá pelas sete da noite, quem puder, que vá à Praia do Diabo assistir a lua cheia brotar do mar, imensa, dourada, e ir ao poucos se transfigurando em branca hóstia a consagrar os que dela comungarem.

2 Comentários

  1. Había escrito algo y por lo visto me olvidé de publicarlo. Te comentaba, Antonio, de la maravilloso poder de las palabras que, cuando expresadas así pueden llegar a plantearnos cosas tales como ¿será que queremos realmente salir de ese refugio impenetrable que podemos construir dentro de nosotros mismos?. Yo no sé si quiero una solución para eso. Me gusta esa idea de cerrar los ojos, respirar hondo,lentamente, mientras del mar brota una luna inmensa, dorada, que se transforma poco a poco hasta volverse blanca y me consagra.

    Gracias. Es siempre un verdadero placer leerte amigo querido!
    Besos.

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