veranico

Que dia lindo! O céu azul-azul, sem um traço de nuvem ou véu de névoa. Uma brisa terral sopra mansa e discreta, sinal de mais dias de sol e mar calmo. Em dias assim, até a tristeza se envergonha. E, para fulminar os corações, à noite, ergue-se no céu uma  esplêndida lua cheia.

Quem gosta mesmo de viajar – e sabe viajar – não vacilaria em comprar uma passagem – devem estar baratas: é baixa estação – e vir passar aqui estes dias de quase secreto veranico. Porque serão dias em que o Rio será secretamente ele mesmo, coisa que também acontece com as gentes, isso de se coincidir com o que se é, assim, quase em segredo, sem que ninguém perceba – a não ser os que por amor em nós procuram um certo brilho no olhar, um sorriso e sabem ouvir nossos silêncios ou os variados tons de nossa voz querida.

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Mas como são inconstantes os ventos, ele agora sopra do sul, ainda cheio de sutilezas, manhoso, alternando mansidão e súbitas rajadas, como ensina a boa capoeira angola. Tão engraçado isso, essas mudanças repentinas e quase imperceptíveis, para quem, distraído, anda pela cidade  imerso numa vida tão mais imaterial e tão mais bruta. Horas marcadas, contas a vencer, fim de ano, começo de mês: tudo são números, abstratos números. O próprio dinheiro, dele quase não vemos mais a cor. E, no entanto, quanta insegurança nos causa. E o quanto nos afasta do mundo, do mundo real de ventos, nuvens, sol, lua, o mar e suas marés… Quase já não saímos de nós,  dentro de nós, ilhados.  Solução? Há – mas agora, em meio ao turbilhão, nos bastaria fechar os olhos e respirar bem fundo e devagar, sentindo na pele o calor do sol e a direção do vento, o aroma que no ar navega, os sons mais longínquos do mundo se fazendo… Só isso – por enquanto, ao menos – só um pouco…

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E mais tarde, lá pelas sete da noite, quem puder, que vá à Praia do Diabo assistir a lua cheia brotar do mar, imensa, dourada, e ir ao poucos se transfigurando em branca hóstia a consagrar os que dela comungarem.