do pesseguismo

É tempo de pêssegos. Ou talvez só agora eu tenha prestado atenção neles. Ou podem ser as duas coisas: elas não se excluem e é fato que nunca dei bola para pêssegos. Achava uma fruta grandona e sem graça. E, ainda por cima, cara!

Esses me encantaram porque são uns pêssegos pequenos, aveludados como convém aos pêssegos, coradinhos, de aparência rústica, mas delicados – e ainda mais quando maduros. E sobretudo são suculentos e saborosos.

Semana passada, venci meu ceticismo e minha implicância com pêssegos e comprei um pratinho, algo como uma dúzia deles. Devorei-os. E ainda ouvi o comentário de que pareciam italianos. Isso é um elogio e tanto no minha estética particular.

Esta semana entâo, abusei. Comprei três pratinhos, o que deve ter dado quase três dúzias – e saí por aí distribuindo e comendo. Já cheguei em casa desfalcado de uma meia dúzia. E almocei pêssegos. E lanchei pêssegos. Estou tão encantado que até a palavra me soa suculenta: pêssegos – e os esses me escorrem pelos cantos da boca, úmidos e solares. “Ah! se a vida fossem pêssegos…” Me pego sonhando, eu gorducho como um pêssego de tanto comer pêssego.

* * *

Depois, mais tarde, já leve, mas ainda todo pesseguento, o poeta deu lugar ao filósofo e concluí: “Tudo são pêssegos!” – e dei por fundado o pesseguismo. E antes que o leitor apressado e carnívoro me acuse o disparate, eu argumento que há na filosofia disparates que só prejuízo causaram – ao contrário do pesseguismo, absolutamente inofensivo, além de portátil e comestível.

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