uma noite só tua

Carregas no teu bolso uma noite só tua.
Um poema? Uma canção? O rascunho de um grito?
Supões (por que o supões?) que te mudaste em mito.
Que não és (se já foste) e que a alma é fria e nua.

Como uma extensa praia, uma deserta rua.
Um poema? uma canção? o rascunho de um grito?
Carregas no teu bolso uma noite só tua.
Vais levando contigo um tátil infinito.

Supões (por que supões?) que não pertences mais
à terra, nem ao céu: o que quiseste, aflito,
é cinza só, e nuvem. Num silêncio cais

tão forte e tão absurdo, que teu corpo flutua.
Um poema? Uma canção? O rascunho de um grito?
Carregas no teu bolso uma noite só tua.

Alphonsus de Guimaraens Filho