tabacaria

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Tabacaria, Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos

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Sempre que me ocorre sentir como sinto agora, me refugio na Tabacaria de Pessoa. Recorro a ela como a um remédio, em busca do silêncio que ali ressoa. Como na sequência desses versos, eu também poderia dizer “Falhei em tudo” – e a ninguém importa ou importa pouco e é natural que seja assim porque não há comunicação senão no amor e o amor é raro e quase sempre fugaz como o lótus ou outras tantas flores que festejam o instante, luz na monótona treva da solidão cotidiana.

E o que significa dizer “eu”, essa palavra tão estúpida, deus manco e singular, deus de nada, nem de si mesmo? Não, “nem em mim” – também eu repito com a sinceridade que me resta, com a sinceridade de quem nunca foi sincero (isso é Borges) porque nunca se soube (“E se soubesse o que saberia?”)- e, insensato, ainda se busca. E teria sido tão fácil se desde sempre aceitasse que nada há aqui a saber, rigorosamente nada. Não há segredos, mistérios, sentidos ocultos, descobertas. Há uma vida a viver com resignação e júbilo – antes que acabe. E que tempo perdi buscando “saber-me”! Saber o quê? O que há aqui de tão singular e oculto, o que há aqui que mereça ser buscado e descoberto e revelado? E não digo isso professando nenhuma espécie de humildade ou niilismo. Se repito “Não sou nada”, nem um pouco me dói – antes, me liberta. Porque essa palavra “nada” não me pesa, não tem para mim um valor negativo, metafísico. É apenas a metáfora vaidosa, a última que me resta, em face da minha óbvia pequenez. E, na verdade, toda a grandeza reside exatamente aí: em perceber a dimensão cósmica, divina, eterna que me abarca e abrange. Eu, essa coisa mínima, intuo a eternidade e, por isso, me é lícito crer que posso de algum modo alcançá-la depois do fim. Mas para isso…