é fácil destruir

É tão mais fácil destruir. Em quatro ou cinco dias, uma máquina gigantesca demoliu o galpão que por mais de meio século abrigara uma oficina e depois um estacionamento aqui bem ao lado do prédio onde nasci e vivi boa parte da minha vida. Resta um terreno vazio de terra revirada – e nada mais.

A rua nunca esteve tão calma. Os novos proprietários aguardam a autorização para construir. Tinham autorização para destruir. Entre uma e outra, reina a paz.

É triste? Para mim, é triste. Porque antecipo os transtornos que virão e hão de durar, dizem, uns dois anos. Mas é triste sobretudo porque foi-se embora mais um pedaço da minha infância. Morremos um pouco com as coisas e as pessoas. A falta marca a passagem do tempo de um modo íntimo e irrevogável. A paisagem inalterada simulava a eternidade ou ao menos um tempo que parecia nos ignorar. Vai-se alguém ou uma casa mais próximos e logo nos assalta o óbvio: o tempo não pára, agil, veloz, indiferente.

E é tão fácil destruir. Isso é outra obviedade que esqueço. Construir leva tempo; exige trabalho, renúncia, atenção, investimentos vários. E há também que conservar, manter de pé e com vigor o que se ergueu com tanto afinco. Um trabalho quase invisível, permanente, delicado, que tenta se antecipar ao tempo, dialogar com ele, ludibriá-lo. Tudo isso é construir. Destruir certamente é mais fácil.