a cartomante reloaded

Em 2011, a Academia Brasileira de Letras instituiu um concurso para escolher o melhor final alternativo para o conto A Cartomante, de Machado de Assis. Teriam de ser reescritos os cinco últimos parágrafos, usando-se um espaço mais ou menos equivalente. Entrei em contato com Machado e ele me soprou generosamente a alternativa que lhe pareceu o correlato cômico do desfecho trágico do conto original. Fez questão de manter quase as mesmas palavras que utilizara no passado, apenas reordenando-as. Suspeito que, além do minimalismo que o caracteriza, há nessa escolha alguma ironia metafísica de quem já pode ver as coisas do ponto de vista da eternidade.

No entanto, os sábios da Academia certamente perceberam o embuste – Machado é de fato inimitável – e decidiram que não seria correto nem premiar o psicógrafo, por não ser ele o autor de fato da versão, nem o próprio Machado que, como autor do conto original, por justiça, estaria excluido do concurso, não fosse um lapso do regulamento.

Considerei irretocável a argumentação acadêmica e por isso não recorri da decisão. Deixei que a coisa caísse no esquecimento. Infelizmente, um atributo dos vivos e talvez dos mortos, não dos imortais. Machado, vez por outra, cobrava-me a publicação. Eu respondia que perdera o texto. Até que, sem querer, acabei por encontrá-lo. Não me resta alternativa senão dá-lo à luz por dever de gratidão.

Para melhor apreciação da solução póstuma, publico antes os parágrafos finais do conto original, ponto de partida do desafio proposto pelo concurso. É aconselhável, porém, reler o conto inteiro, o que pode ser feito aqui.

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O original

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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A versão

Tudo lhe parecia agora melhor. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Fizera mal em demorar-se tanto.

— Depressa, repetia ao cocheiro.

Daí a pouco chegou à casa. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha no rosto uma expressão de menino, jovial e maliciosa; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar uma exclamação de espanto: de pé, a poucos passos, estava a mulher mais linda que já vira. Parecia-se com Rita, mas em segunda edição, revista e ampliada, mal saída do prelo. Ao fundo sobre o canapé, Rita o olhava, sombria e quieta, diria-se morta, de tão pálida.

– Esta é Dalva, sobrinha de Rita. Acho que já lhe falei dela… Camilo não lembrava, mas os olhos de Vilela diziam que, fosse como fosse, não lhe contara tudo. Pensou mesmo ver uma chispa de ciúmes neles quando ela lhe estendeu a mão e um sorriso seguro dos efeitos que causava:

– Encantada! A fama que o antecede de modo algum lhe é injusta!

Era tarde quando Camilo saiu da casa de Vilela, que não arredara pé da sala. Rita com dores de cabeça, nem jantara: retirou-se cedo para o quarto.

Na volta, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Teria adivinhado a peça e os personagens, mas errado os atores, com se olhando de longe, não lhes identificasse os rostos? O mistério empolgava-o, mas era Dalva que o animava. “Dalva” repetia para si, saboreando as sílabas. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado: “Vá, vá, ragazzo innamorato”. Lenta e graciosa, uma paixão nova e vivaz lhe ganhava o coração, que ia alegre e impaciente, já nem pensando nas horas felizes de outrora, mas nas que haviam de vir.

Ao passar pela Glória, olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.