depois de tudo, no silêncio da manhã de natal

Você vai. Resta o corpo. É o que nos cabe. Inerte, inútil, só. Os vermes e os papa-defuntos o disputam. A sua vida nele não mais está, mas nele persiste a vida sob outras formas. A vida segue, incessante e múltipla. E você?

Resta uma foto que tirei, em que você, vaidosa, virou o rosto. Resta o beijinho que eu ia dar de despedida, mas não dei, preocupado em não passar algum vírus para você. E, no corredor, quase voltei para dar o beijo, mas achei uma tolice sentimental que talvez fosse assunto no outro dia. Não houve outro dia. Uma combinação de fatalidade e erro levou você, já tão debilitada, para uma UTI, sedada, a vida por uns tubos, o corpo reduzido ao campo de batalha impessoal entre a medicina e a doença. E você?

Eu creio que também segue, incessante. Outra saga, onde o tempo não há – e, portanto, também não a morte. Sim, a vida – natural e sobrenatural – triunfará, incessante, imensa, eterna.