santa maria

É tudo muito triste. Eu não consigo ver as fotos. São todos muito jovens. Poderiam ser meus filhos, parentes meus, vizinhos, um amor, quem sabe. É certamente a maior de todas as dores humanas: enterrar um filho. Mas são tantos sentindo a mesma dor que não há como não serem também nossos esses filhos mortos, tão estupidamente mortos. São um pouco os filhos que não tive e os que tenho, porque não há jovem hoje que de súbito não se perceba exposto à ganância dos que vivem de explorar suas ilusões. E são tantas as ilusões da juventude. Eu sei porque ainda as tenho… Como sonhamos que seria fácil a felicidade! E como pagamos sempre caro por isso ainda que sempre nos parecesse pouco. Porque ali, na alquimia insana dos corpos em ardente movimento, pensávamos forjar a fórmula da felicidade fácil e gratuita e eterna de um futuro mundo sem paredes nem contas a pagar no fim da festa. Como sonhei com essa fórmula; como acreditei nessa comunhão. E no entanto, passado o tempo, eis que me alcançou a solidão – e também a ela eu não soube dizer não. Por caridade, talvez: a solidão era só minha ilusão despida, desamparada e trêmula. Ah, mas meus filhos – os quase trezentos filhos que de uma só vez perdi lá em Santa Maria – eles não tiveram tempo de ver a nudez de suas ilusões. Devorou-os a ganância, que é a roupa que ostenta a solidão ressentida, incapaz de toda caridade.

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