o lado bom da vida

Fui ver “O lado bom da vida” (Silver linings playbook).  Achei engraçado, comovente e… “apavorante”. Os personagens são (de início) histericamente autocentrados, superficiais e egoístas. Toda comédia é uma crítica – talvez a forma mais eficaz de crítica, porque  não se importa em buscar causas, mas só em apontar efeitos. Nesse sentido, o filme é uma crítica à modernidade.

Em “O lado bom da vida” o homem moderno – impregnado de darwinismo, freudismo, marxismo e ateísmo – se mostra reduzido a um macaco doente acossado pela superstição e pela loucura, voluntariamente entregue ao controle do Estado (sob a forma de médicos, juízes e policiais), incapaz de articular em palavras suas ambiguidades e angústias e inteiramente dominado pelos impulsos de emoções que não compreende e não controla.

Não há valores e princípios que lhe orientem as ações e lhe imponham limites às emoções. Não há referências externas que lhe sirvam de modelo: centrado em si mesmo, sua vida se reduz a um interminável delírio solipsista onde tudo se reduz a símbolo – nada é o que é, nada tem um sentido próprio. Um controle remoto não é mais um mero controle remoto, mas um poderoso amuleto capaz de influenciar os resultados de uma partida de futebol há quilômetros de distância. Um concurso de dança não é um concurso de dança, uma oportunidade profissional, mas um desafio puramente pessoal. Uma mulher não é uma mulher, mas o veículo de uma mensagem que se quer entregar a outro.

A vida perdeu inteiramente o sentido; a sequência dos fatos não parece mais amarrada por um conjunto compartilhado de regras, valores, princípios que lhe confira um sentido comum mais ou menos claro. Tudo é sintoma – o que equivale a dizer, tudo é símbolo, ou menos ainda, indício mais ou menos obscuro de algo que não se pode senão vislumbrar, sombra monstruosa e imaterial do que não se sabe. Como na hipótese psicanalítica, a alma/ mente é uma ilhota de precária racionalidade cercada por um oceano de irracionalidade de onde emergiu e para onde parece constantemente ameaçada de submergir de volta – e para sempre.

Em uma máxima muito citada, Chesterton afirma que o problema de não se acreditar em Deus é que passa-se a acreditar em qualquer coisa – de remédios a controles remotos. Em “O lado bom da vida” a religião se reduziu a mera expressão exterior de luzinhas e enfeites de gosto duvidoso. Seu lugar, o lugar do fervor, foi ocupado pelo esporte, única manifestação pública capaz de integrar gente de origem e fé tão dispares quanto os torcedores do Eagles – gente que, em outros tempos, se encontraria no culto de domingo.

O solipsismo e a consequente ausência de sentido é tamanha que não há sequer vilões no filme: eu sou meu próprio inimigo. Nenhuma ação dura o suficiente para se articular em bem ou mal de fato, tudo são atos irrisorios que ou se revestem de uma mitica significação subjetiva ou se reduzem a atualização de impulsos quase involuntários e violentos, a que necessariamente se seguem pedidos sentidos de perdão. E o padrão se repete infindavelmente como se o tempo tivesse sido abolido: não há mudança, apenas repetição. As almas foram diligentemente reduzidas a um conjunto de obsessões tratadas com remédios.

Só a família resiste, prestes a sucumbir – porque agora fundada apenas no que tem de mais primário: o amor da mãe, por mais que ele no filme pareça à beira de um justificado ataque de nervos. Aliás, vale dizer, “O lado bom da vida” repete um traço comum a quase todos os filmes recentes que vi: toda a força que resta está com as mulheres; os homens não passam de (já ia repetir “se reduziram a”) idiotas violentos.

A mãe e Tiffany são os personagens determinantes da história. A fé amorosa e cega da mãe conserva a precária união de todos. O amor passional e obstinado de Tiffany pode então atuar para alcançar o impossível: a mudança. Mudança que significa, na verdade, um retorno a um padrão de felicidade que aos olhos da modernidade é a própria expressão do conformismo.

Essa tensão entre mudança como retorno e mudança como revolução se expressa no comportamento sexual de Tiffany. Seu primeiro casamento naufragara porque ela “não queria filhos” e a obsessão sexual se esgotara depois de quatro ou cinco anos. A própria morte do marido se reveste de um sentido de parábola: desejoso de “recuperar o festim antigo” ele compra lingeries da Victoria Secret para a esposa, mas é castigado pelos deuses da luxúria ao interromper o fluxo da obsessão para um ato desastrado de caridade. A viuvez atira Tiffany num “abismo de liberdade onde ela encontra apenas solidão e abandono que o “remédio sexual” não é capaz de curar. Ao contrário, só lhe aumenta a dor.

Mas, sutilmente, o ideal da “família feliz” se reconstrói. Tiffany descobre o amor.

Como em todo bom roteiro americano – e nisso eles são imbatíveis – esse amor (ou esses amores: o amor conservador da mãe, o amor criador da mulher) produz o turning point, a virada. Se a primeira metade do filme é de uma idiotia exasperante – ainda que o filme se sustente numa montagem eficientíssima que deve muito aos videogames em primeira pessoas – a segunda metade chega a ser brilhante (o que redime a primeira metade!). É partir daí que “O lado bom da vida” se torna uma comédia romântica onde a miséria humana é redimida pelo amor – fórmula incansavelmente repetida, porque no fundo é tudo que queremos ouvir: o amor pode nos transformar em pessoas melhores e felizes.

A virada começa exatamente na cena emocionalmente central do filme: o momento em que De Niro sobe para acordar o filho, senta na beira da cama e inicia um diálogo quase involuntário que é uma síntese de todos os seus sentimentos e atos. Literalmente de chorar. Mas a cena que marca a virada “oficial” da narrativa é a triunfal entrada de Tiffany na casa do herói quando tudo já se dava por perdido. Num golpe de mestre (que mostra que havia “método em sua loucura” e o quanto pode a obsessão quando posta a serviço da razão), ela conquista o coração do patriarca De Niro. Porque ela tem um plano para recueperar tudo que foi perdido!

Enfim, o drama daqueles personagens suburbanos de uma cidade média americana é o drama do homem moderno. E a solução que o filme nos oferece é o amor, o amor fecundo entre o homem e a mulher, fecundo porque fundado nos valores universais da família: “crescei e multiplicai-vos”. Toda a energia da obsessão sexual foi canalizada para um projeto comum de mútua e auto descoberta. Que tenha sido a dança o veículo dessa ressurreição não é estranho: a ressurreição prometida é a do corpo, pois a alma é já eterna.