a prova literária

Há inúmeros argumentos em favor da divindade de Cristo. Por ora, o único que me é possivel articular com alguma clareza me é também suficiente e o chamo de “a prova literária da divindade de Cristo”. Acredito que a quase unanimidade dos que hoje se declaram ateus, agnósticos ou simplesmente anticristãos jamais leu os Evangelhos. Não falo do Antigo Testamento, nem mesmo do Novo Testamento completo, mas exclusivamente dos quatro Evangelhos. Não faz muito tempo, me dei conta que eu também não lera o que qualquer historiador ou filósofo, não importa se crente ou ateu, há de considerar um dos pilares de toda a cultura ocidental: os Evangelhos. Uma lacuna e tanto. Deveria ser óbvio que ninguém pode a sério se considerar intelectualmente formado sem os ter lido. Mas décadas de preconceito e decadência espiritual produziram a ilusão de que sua leitura é supérflua e mesmo nociva. No entanto, nenhuma lista de autores e livros que se pretenda completa pode prescindir dos Evangelhos.

Essa leitura obrigatória não precisa ser feita com olhos crentes. E talvez uma primeira leitura deva mesmo evitá-los. Pois, a primeira e mais persistente de todas as surpresas que os Evangelhos provocam – ao menos em um escritor ou leitor voraz – é a de que se trata de uma obra de arte literária. E, ainda para maior pasmo, de obra “moderníssima”.

Estruturalmente, a mesma história é contada sob quatro pontos de vistas e estilos distintos, mas não distoantes e, sim, complementares. Só isso, já seria espantoso – porque “moderno”.

Sob o ponto de vista estilístico, todos os Evangelhos primam por uma uma secura textual quase jornalística, que concorre para tornar a narrativa dinâmica, sem excessos e sentimentalismos – o que é supreendente em se tratando de tema tão pungente. Em contraponto, as parábolas e metáforas incomuns mantém a imaginação em permanente alerta, fazendo com que a realidade se revista de significado e simbolismo.

Finalmente, há os personagens. E é aí que os Evangelhos mostram toda sua força sobrenatural. Uma característica marcante dos grande livros e dos grandes autores são os personagens coadjuvantes e secundários. Não há grande livro que não esteja sutilmente sustentado por personagens coadjuvantes e secundários inesquecíveis, que, sem eclipsar os personagens principais, rivalizam com eles em densidade e beleza.

Os Evangelhos estão cheios deles. Entre os coadjuvantes, há Maria, a menina que recebe a visita de um anjo para lhe comunicar que dará à luz o Filho de Deus. Há José, discretíssimo e eficiente. Há Marta e Maria. Há Lázaro, o ressuscitado que prenuncia o próprio Cristo. Há os apóstolos e entre eles Judas – de que Iago é um pálido espelho. Há Pilatos, cruel e vacilante. E há os secundários e anônimos, como a samaritana, a adúltera, o centurião que crê sem sequer entender porquê, os dois ladrões e todos os agraciados com milagres que Jesus distribuía com prodigalidade como se fossem o menor de todos os sinais de sua divindade.

E há Jesus – e aqui começa o que chamo de “prova literária”: é preciso ser escritor ou leitor voraz para se dar conta quase de imediato que nenhuma mente humana seria capaz de criar Jesus (e nesse sentido, sou grato por só ter lido os Evangelhos depois de tantos clássicos). Dois mil anos de profundíssima influência no pensamento e no comportamento do todo o Ocidente “naturalizaram” o que foi por séculos motivo de escândalo – a começar pelo trato dispensado às mulheres – e amorteceram o impacto do personagem. Dois mil anos nos tornaram – mesmo a contragosto – a todos mais Jesus do que admitimos ou sabemos.

Jesus é tão espetacular – e, ao mesmo tempo, o antiDeus pagão por excelencia. É pobre, vergonhosamente pobre e, no contexto judaico, escandalosamente blasfemo – razão alegada, aliás, para levá-lo à Cruz. E tudo, absolutamente tudo o que Ele diz, é não apenas trivialmente inteligente, mas inesperadamente inteligente. Tudo que ele diz ou faz nos revela alguma coisa jamais pensada ou imaginada… por nós! Sim, quero dizer exatamente, por nós ao longo de dois mil anos. Mesmo com toda a já referida “naturalização” da mensagem crística, ainda assim, Ele nos surpreende – porque ou nos faz pensar o que nunca pensamos ou se revela fonte daquilo que pensávamos ser tão… “moderno”! O tempo todo Ele “inverte” o senso comum, mas suas inversões não são banais, simples oposições, mas oposições inusitadas.

Harold Bloom afirma que Shakespeare inventa o homem moderno. É plausível dizer que Jesus, com sua constante referência à consciência humana, ao que chamamos de eu interior, inventou o Homem, o homem como hoje o concebemos, em nossa atormentada liberdade. O homem de corpo e alma. Pois, se ainda hoje, dois mil anos depois, ainda persiste um gnóstico desprezo pelo corpo, tomado como uma espécie de castigo, prisão temporária da alma, uma alma que também nunca fora unanimidade, tem sido o cristianismo que luta – às vezes literalmente – para manter a dignidade do homem como entidade integral.

(Na sequência – aqui mesmo neste post – falarei das cenas dos Evangelhos)