notas de um homem em seu quarto de menino II

Parece que o tempo compromete nosso olfato. Todos os sentidos se corrompem com o tempo, é verdade: estão aqui os óculos que não me deixam mentir. A audição às vezes parece dar sinal de já não ser mais a mesma. Mas do paladar, do olfato, do tato ainda nada posso falar. Parecem intactos e, até certo ponto, aprimorados pela experiência.

Minha mãe não parece se incomodar com o cheiro de guardado das roupas. Da colcha, por exemplo, que ainda agora lhe punha sobre o lençol porque a noite esfriou. Não é um cheiro ruim, certamente. É, como eu disse, o cheiro de guardado que se acrescenta às coisas que pouco se usam e muito tempo ficam sem lavar, escondidas em gavetas – como as roupas de frio numa cidade como o Rio. Eu arrumava a colcha um tanto desbotada e com pequenas manchas espalhadas e me ocorreu pensar que esse cheiro, atenuado pelo olfato gasto, talvez sugerisse ao espírito dela algum conforto, algum tipo de segurança. Cheiro de coisa antiga, que está conosco há muito tempo e por isso nos traz não exatamente lembranças precisas, mas uma noção mais exata do que somos. Um calor, um aconchego de estar no tempo como entre algodões, frágil cristal. Sim, é nos cheiros que o tempo se mostra em sua densidade. Aos olhos, as coisas são sempre o que são: presente. Os cheiros sugerem mais facilmente uma história, um tempo transcorrido, onde nos aconchegamos para dormir: meus cheiros, minha história. Talvez nem tanto se desgaste o olfato, mas sejam os cheiros que  se tornem cada vez mais íntimos. Com o tempo, acabarei descobrindo…