notas de um homem em seu quarto de menino III

Eu não sinto a sua dor. Por mais que me compadeça, a dor é sua. Não tenho como aferi-la, dimensioná-la. Não tenho, enfim, como senti-la. Não sei quanto nem como dói. Sua dor me incomoda, me exaspera, me entristece, me entedia, me irrita – mas não me dói. Só o médico pode entender sua dor. Só o médico pode compartilhá-la genuinamente. Por isso a medicina é um exercício de compaixão. Pelo conhecimento da dor o médico pode chegar a compartilhá-la: “Eu sei o que você está sentindo”. Porque ele sabe onde essa dor começa e por quê, como ela se irradia e até onde alcança.

Ele sabe, ele sente: o conhecimento o liberta da exasperante limitação egoista dos sentidos. A compaixão não é um sentimentalismo qualquer, desses que do choro intenso repousa depois, aliviado, na indiferença. A compaixão é um conhecimento que contornando as limitações da sensibilidade, usa primeiro da razão, para conhecer o que o corpo nao pode sentir, e depois da imaginação, para concebê-la tão perfeitamente quanto possível a ponto de poder dizer com honestidade: “Eu sei o que você está sentindo.”

A medicina tem me ensinado que não existe compaixão sem conhecimento. A doença tem me ensinado a descobrir as limitações do corpo. Não apenas as limitações de um corpo doente (porque isso é o óbvio), mas as limitações do meu corpo saudável para compartilhar a dor do outro. O corpo sente e só pode compreender o que sente. É egoísta, não por intenção, mas por definição: a dor do outro lhe é inacessível. A compaixão é – não sei se “também” ou “sobretudo” – um impulso para conhecer, para interrogar e ouvir que não nos vem do corpo, dos sentidos. Entendimento, razão, intelecto – são os nomes que me ocorrem ter ouvido associados a essa “faculdade”, chamemos assim. Mas ela está lá – e, uma vez estabelecida, parece então subordinar todas as outras – os sentidos do corpo, a memória, a imaginação – para o conhecimento, para a compaixão. Se é assim, a compaixão é também uma disciplina. Uma disciplina intelectual – ou espiritual, melhor dizendo.

1 Comentário

  1. Senti a dor da minha mãe tão colada fiquei a ela nos últimos tempos. Mas no hospital para onde fomos a dor se perdia na correria dos médicos; enfermeiros, da desimportância da dor em meio a tanta dor. E, em meio, a pacientes em excesso, médicos poucos. A dor se perdia porque era a dor de uma velha. A dor de uma velha é só a dor de uma velha.
    Não tivesse encontrado um médico conhecido – meu ex-aluno- minha mãe não teria recebido conforto, alento.
    A medicina criou o anestésico. Mas hoje há muitos médicos anestesiados para a dor. O conhecimento traz alívio e pode ser uma forma de compaixão. Concordo com sua postura.
    Mas o que mais me doeu naquele frio hospital foi a dispersão de tudo, gente, medicamentos, gestos ausentes. E a dor ia se apagando não porque não doesse mas porque não importava aos que ali estavam.

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