notas de um homem em seu quarto de menino IV

A vida vai nos abandonando aos poucos. Primeiro, vai levando a quem amamos, um a um; mais tarde, nos damos conta que também a nós está levando, aos poucos, mas cada vez mais depressa até que nós mesmos desejamos partir, até que nossa vida se torna uma longa e nostálgica despedida, que já parece se estender além da conta e nossa vontade é dispensar os amigos que aguardam conosco na plataforma esse trem que não chega, pois ninguém tem nada com isso, com seu atraso. Mas não é assim, os trens desta estação saem na hora precisa que paradoxalmente não está inscrita no bilhete, nem é anunciada nos alto-falantes a não ser em cima da hora, sempre inesperadamente, por mais iminente que a partida nos parecesse. Então é aquele corre-corre, as expressões perplexas, o choro convulsivo de uns, a seca resignação de outros… “É a vida”, repetimos uns para os outros; uns querendo dizer que a morte faz parte da vida, outros, que ela só faz parte da vida dos que ficam – o que, pensando bem, soa mais lógico: a morte parece mesmo um acidente, um erro, um defeito qualquer de fabricação. Mas, no entanto, repetem, “É a única coisa certa desta vida”. Indeciso sobre a reposta na verdade inútil (nada se alterará de fato), melhor caprichar na despedida quando se torna claro que o trem irá chegar a qualquer momento, e então talvez não tenhamos tempo para dizer tudo que ficará por dizer, porque há muitas formas de dizê-lo sem repetir-se: um carinho nos cabelos, uma massagem nos pés, a paciente audição da mesma história contada há tantos anos, um abraço mais longo, a percepção de um velho brilho no olhar que, apesar de tudo, ainda se manifesta, às vezes, como se o tempo não houvesse passado…