notas de um homem em seu quarto de menino v

As perguntas são de uma simplicidade embaraçosa, quase humilhante. Minha mãe me procura pelo canto do olho, ansiosa. A médica – psicóloga, talvez – tem idade para ser sua neta e repete a pergunta com carinho e firmeza. O pacto é que eu não ajude nas respostas: “Não pode dar cola!”. Minha mãe então me olha de fato, os olhos confusos cheios de súplica. Não me lembro de tê-la visto assim antes, tão desamparada e tão suplicante. Não resisto a ajudá-la e o faço de um modo que quer parecer engraçado e casual, como se a dificuldade em responder tamanha banalidade fosse a coisa mais normal do mundo. Falo rindo, genuinamente – e a médica, que talvez tenha idade para ser minha filha, me censura mais uma vez, rindo também – mas por dentro me dói. Me dói aquele olhar desamparado e suplicante; aquele olhar de criança; aquele olhar que misturava brilho e opacidade, cumplicidade e despedida. Pela primeira vez em muito tempo eu me senti reconhecido em meu papel de filho – eu, que tantas vezes num passado remoto, lancei a ela esse mesmo olhar confuso e carregado de súplica.