a liberdade

Falamos de liberdade como se ela nos igualasse ou aproximasse de Deus – exista Ele ou não – como se a liberdade fosse um poder que se exerce com orgulho e pompa. Falamos de liberdade como se ela não derivasse de nossa estúpida contingência, da permanente ameaça da morte, da permanente exigência de ter de escolher entre isto ou aquilo sem que saibamos qual alternativa nos conduzirá mais depressa para o não-ser, a morte, o fim que, sabemos, nos espera em algum ponto do caminho.

Falamos de liberdade como se não fôssemos prisioneiros dos sucessivos instantes que exigem cada um profundas ou superficiais escolhas, sempre isto ou aquilo, ação ou adiamento, palavras ou silêncio – mas sempre alguma coisa, sempre algo que é e resultará em outra coisa e assim sucessivamente, instante após instante, gota a gota, mas incessante, como se fossem um único e longo momento tão angustiante que pode levar um idiota a confundi-los com a eternidade. Sim, porque cada misera escolha repercute sobre a totalidade de todas as escolhas passadas (como se delas emanasse) e haverá de algum modo de pesar sobre as escolhas futuras. Então é sempre a totalidade que está em jogo – a totalidade de uma vida finita mergulhada todo tempo em um vasto oceano de possibilidades que a ultrapassa.

Falamos de liberdade como se não soubéssemos que estamos à deriva nesse vasto oceano de possibilidades que, intuímos, está todo aí, virtualmente dado, já, agora, à espera – à espera que atualizemos a ínfima parcela a que chamaremos, não sem emoção, aquela emoção simplória e comovida que nos acompanha sempre, que chamarei de “minha vida”, enquanto contemplo com olhos rancorosos e magoados o vasto oceano invisível das oportunidade perdidas, das baixezas sempre evitáveis, da covardia em face do amor e da justiça. O vasto oceano invisível que pertence por direito ao medo, ao único medo que existe, ao medo da morte. A morte, aquela mãe da minha liberdade e que tem por sobrenome “contingência”.

Falamos da liberdade como se ela fosse mesmo uma escolha e não uma condenação e um castigo.

Mas ainda assim, há um momento – muito raro porque não fazemos por merecê-lo – em que nos aproximamos do Deus Criador que por Amor nos outorgou a Vida, este Mistério – e então, contra todas as expectativas e presságios, contra o bom andamento do mundo – nós, do quase-Nada, do fundo Improvável  do oceano, sacamos um poema, uma música, um quadro, uma equação – absolutamente inéditos – ou suprema obra!, o genuíno silêncio que é a Paz do meu coração alinhado ao Teu.