amaro & dulce

Se Amaro fosse profeta, o Gênesis começaria assim:

“Espuma girando no chão…
Borbulhas
– querendo ser bola de sabão –
se sucedem em círculos que não cessam,
espiral dançante de instantes que espocam em muitas cores,
até que uma se desprega
e solta-se no ar:
ei-la! que sobe
e se inaugura
vacilante ser saltado de outra dimensão:
Lá, o tempo não durava.
Aqui, ela é livre !

– Onde ir? Como vou?
– Vou onde o vento pode levar meu peso. O vento que é também meu faro…
Ela se indaga e responde antes de sumir num plim! de bola de sabão.”

Pois, para Amaro a noite acabava assim, com o dia começando. O português do bar da esquina passava o rodo, lavando o chão, e Amaro, o que via? O universo a seus pés, escoando pelas ralos…

E então, disso que se esvai, voa uma bolinha de sabão que sobe, sobe, voluteando no ar em imprevistos de dança, levando de Amaro os olhos sorrindo já de seu encanto. E subiu, subiu e em um dado instante fez plim! bem na altura da janela de Dulce, que assuntava as nuvens e os cheiros do mar pra saber se havia sol e daria pra nadar…
E foi no plim! da bolhinha que ela reparou num relance o moço na calçada que a olhava rindo muito à vontade um riso sensual e distraído, meio bêbado, meio beato… E sorrindo já do dia lindo, sorriu de volta…
Quem viu quem primeiro?
Não se pode saber, pois o instante não pertence à sucessão. Importa que ali inaugurou-se secretíssimo movimento, quase tão velho quanto o mundo. Amaro sorriu para Dulce, já se sentindo mais forte, e Dulce sorriu para Amaro, já se sentindo mais bela.

E nessa mesma tarde, quando se encontraram na praça, os dois já sentiam que seria para sempre.
“Dulce”, ele sussurrou para si algumas vezes as sílabas que lhe soavam como se o céu se abrisse de súbito após séculos de escuridão e caos. E ela olhava os lábios dele se movendo em silêncio e lembrava, não sabia por quê, da polpa vacilante dos cajus maduros de sua infância.
Foi assim, e foi para sempre – intenso e manso amor. E ainda hoje, depois de tantos anos, de vez em quando, é possível ver da janela Amaro e Dulce dançando na sala, em plena madrugada de terça-feira, cheek to cheek, talvez só porque é lua cheia ou coração pleno…